A apatia dos esclarecidos (Aufklärung)

Ao abdicar da ação coletiva, o professor deixa de exercer aquilo que deveria ser o cerne da vida acadêmica: o pensamento crítico em ação

A apatia dos esclarecidos - Arte: Gilmal

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 01/11/2025 às 00:00 | Atualizado em: 31/10/2025 às 15:23

Em O que é participação? (1983), Juan E. Díaz Bordenave lembra que participar é muito mais que estar incluído em um grupo. É fazer parte, tomar parte e ter parte, isto é, pertencer, agir e usufruir dos resultados de modo justo. A participação, portanto, não se caracteriza como um favor do Estado e nem é um modismo democrático: é, antes, uma necessidade humana, uma forma de realização e de pertencimento social que rompe com a alienação e a apatia. 

O próprio termo “esclarecimento”, de origem iluminista (Aufklärung), remetia à ideia de emancipação pela razão, ou seja, a passagem das trevas da ignorância à luz do conhecimento. Não por acaso, essa herança moldou a própria formação dos professores, concebidos como mediadores do saber e agentes do esclarecimento coletivo.  

No entanto, o paradoxo contemporâneo é que muitos desses “esclarecidos/iluminados” parecem ter apagado a própria luz crítica quando o tema é a participação política. Quatro décadas após o lançamento do livro de Bordenave, a lição parece esquecida por quem deveria tê-la aprendido bem cedo: os professores. 

Participação política em colapso 

A participação política dessa categoria está em colapso. No âmbito das universidades, salvo raras exceções, as assembleias são esvaziadas, as discussões sobre o futuro do serviço público raramente têm quórum, e as reformas que ameaçam a própria existência dessas instituições avançam sem resistência proporcional. Assim, a pauta coletiva vai sendo substituída por um silêncio que beira o conformismo.

Ao mesmo tempo, as festas organizadas pelos sindicatos, todas elas, estão sempre lotadas. O paradoxo é eloquente: há mais entusiasmo para celebrar do que para lutar. Certamente, a explicação não é simples, mas uma hipótese se impõe: a leitura crítica do mundo – tão valorizada na sala de aula – parece não atravessar os portões da universidade.

Há medo, cansaço, fragmentação ideológica e uma descrença crescente na eficácia da ação coletiva. Todavia, o resultado é o mesmo: a inércia política daqueles que deveriam ser exemplo de participação. Professores que analisam a história das lutas sociais, mas não participam delas; que denunciam desigualdades, mas se acomodam diante dos cortes, da precarização e da desvalorização de sua própria carreira.

Participação é um aprendizado

Bordenave lembra que a participação é um aprendizado, e que se desaprende quando não se pratica. Nesse sentido, a participação se assemelha a tocar um instrumento musical: quando se deixa de praticar, perde-se a técnica, a sensibilidade e, com o tempo, até o prazer de tocar. É na experiência comum, na divergência e no esforço coletivo que se forja a consciência política. Quando o corpo docente se ausenta, abre-se espaço para que outros decidam e, quase sempre, o façam contra ele.

Em outras palavras, ao abdicar da ação coletiva, o professor deixa de exercer aquilo que deveria ser o cerne da vida acadêmica: o pensamento crítico em ação, o compromisso ético e político com a sociedade.

A universidade, que sempre foi um espaço de resistência intelectual e de produção de consciência crítica, corre o risco de se tornar um território de especialistas cansados, individualizados e isolados.

É preciso “tomar parte”

Nos termos de Bordenave, deixamos de “tomar parte” nas decisões que nos dizem respeito, contentando-nos em apenas “fazer parte”, uma forma passiva de inclusão que não transforma nada. O resultado é uma categoria marginalizada dentro de si mesma, que observa de longe o desmonte do serviço público, o rebaixamento do ensino em todos os níveis e a precarização das condições de exercício de suas próprias atividades de trabalho.

Novamente, participar, afirma Bordenave, é também um ato de prazer e de eficácia: prazer porque nos faz pertencer, e eficácia porque a ação coletiva é sempre mais potente que a individual. Nesse âmbito, quando o(a) professor(a) se desobriga da luta, ele(a) renuncia a ambos – ao prazer de construir algo junto e à eficácia de influir no rumo das coisas. O custo é alto: perdemos poder, representatividade e, pior, sentido de propósito.

Considerações finais 

A participação política dos(as) docentes é, hoje, uma das condições para que a universidade continue sendo um espaço público e não uma mera prestadora de serviços técnicos. Reaprender a participar – e a “tomar parte” – é tarefa urgente. Porque quem se cala diante dos ataques, quem troca o debate pela omissão, já é partícipe das derrotas. 

Sociólogo*

Arte: Gilmal