A Floresta Amazônica não cabe no PIB
A declaração de José Graziano de que, superando o Nordeste, a Amazônia virou epicentro da fome no Brasil soa como um grito de alerta e um diagnóstico incômodo
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 18/10/2025 às 00:00 | Atualizado em: 18/10/2025 às 08:40
Em discurso recente em Roma, o ex-diretor-geral da Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), José Graziano da Silva, afirmou que a Amazônia se tornou o “epicentro da fome no Brasil”, superando o Nordeste, região historicamente marcada pela escassez alimentar.
A declaração soa como um grito de alerta e um diagnóstico incômodo. Para o criador do Programa Fome Zero, o bioma mais rico do planeta é hoje o território mais faminto do país. A contradição é brutal. Ou seja, onde há a maior concentração de sociobiodiversidade, há também a mais profunda carência de direitos básicos, como saúde, educação, trabalho e alimentação adequada.
O paradoxo se estabelece da seguinte forma: a Amazônia é, ao mesmo tempo, abundância e privação. A região possui a maior reserva de água doce do mundo, mas falta água potável em milhares de comunidades ribeirinhas. Eu sei, eu estive lá, eu vivi lá. É o celeiro da biodiversidade, mas carece de políticas públicas que transformem essa riqueza em bem-estar social.
Modelo e lógica ultrapassados
No geral, na Amazônia, a economia ainda se move pelo modelo primário-exportador e a sua lógica atrasada de comercialização de matérias-primas in natura, sem agregação de valor nem redistribuição de renda. O resultado dessa lógica é a perpetuação de uma estrutura de dependência que remonta aos famosos ciclos econômicos que a região já viveu: o ciclo das drogas do sertão, da borracha, da pimenta-do-reino, entre outros.
Como desdobramento desse processo, os indicadores sociais revelam o abismo: na Amazônia, desde as capitais às cidades menores observam o aumento da insegurança alimentar, vivem o desemprego, transitam na informalidade do trabalho e convivem com a violência. A floresta é transformada em ativo econômico, e não em base civilizatória.
O PIB, esse fetiche estatístico do crescimento, não mede corretamente o que importa, como o desequilíbrio ecológico provocado pela exploração ilegal de madeira, pelo garimpo, pela mineração e pela pesca predatória.
Na lógica de mercado, a floresta só vale quando vira mercadoria. Mas é justamente o conhecimento e o modo de vida tradicionais – que não cabem nessa lógica – que garantem a proteção e a continuidade dos ecossistemas. Nesse contexto, a fome na Amazônia não é apenas um dado apresentado por José Graziano, mas uma denúncia política: o sintoma de um modelo de desenvolvimento que devora o território e abandona sua gente.
Índices vergonhosos
Os números dão corpo à dimensão da contradição amazônica. Segundo o Imazon (2025), 36,2% da população da Amazônia Legal vivia em situação de pobreza em 2023, índice quase dez pontos percentuais acima da média nacional. Em alguns estados, como o Amazonas, a situação é ainda mais grave: 55% da população vive na pobreza e mais de 10% em extrema pobreza, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE (2022).
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) regional permanece entre os mais baixos do país, com diversos municípios amazônicos abaixo de 0,500, faixa considerada “muito baixa” pelo PNUD. É a floresta da abundância convivendo com a fome, o atraso e o abandono institucional.
É preciso compreender que a Amazônia pertence, sobretudo, à humanidade. Ela não é apenas um reservatório de commodities nem um tabuleiro de disputas geopolíticas. É um território estratégico para o clima, a biodiversidade e a produção de conhecimento. Mas é, acima de tudo, o lugar de morada para 30 milhões de brasileiros (PNAD Contínua 2024) que precisam– e exigem – dignidade.
Considerações finais
A floresta não cabe no PIB. Porque a vida não cabe nas planilhas. Medir a Amazônia apenas por índices econômicos é desconhecer sua natureza profunda, que é relacional, simbiôntica e solidária. Talvez seja hora de substituir a métrica do crescimento pela ética do cuidado com a terra, com a água e, fundamentalmente, com as pessoas.
Manter a floresta em pé enquanto se deixa o povo com fome não é preservação. É perversidade disfarçada de política ambiental.
Tenho dito!
*O autor é sociólogo
Arte: Gilmal
