Como o déficit dos EUA vira poder global via dólar
Estratégia financeira americana converte um desequilíbrio fiscal interno em mecanismo de controle monetário e influência sobre outras economias
Por Plínio César Coelho
Publicado em: 14/10/2025 às 21:03 | Atualizado em: 14/10/2025 às 21:03
O recente saldo negativo da balança comercial dos Estados Unidos, que atingiu a marca de US$ 78,3 bilhões em julho de 2025, seria um sinal de alarme e fraqueza para qualquer nação. No entanto, quando se trata dos Estados Unidos, o maior devedor líquido do planeta, esse déficit persistente assume uma conotação peculiar, revelando não uma fragilidade, mas sim a essência do seu poder imperial.
A persistência em comprar muito mais do que vendem é um reflexo direto do “privilégio exorbitante” conferido ao dólar, a moeda que rege o comércio e as finanças globais.
Este fenômeno não é acidental, mas sim um pilar fundamental da hegemonia americana.
O “privilégio exorbitante” do dólar
O conceito de “privilégio exorbitante”, cunhado pelo ex-ministro das Finanças francês Valéry Giscard d’Estaing na década de 60, sintetiza a vantagem inigualável dos EUA.
Desde o colapso do sistema de Bretton Woods em 1971, que desvinculou o dólar do padrão-ouro, a moeda americana passou a ser lastreada principalmente pela credibilidade e pelo poder econômico-militar dos próprios Estados Unidos.
A engrenagem da dominação:
1. A demanda global por dólar : o planeta, para conduzir o comércio internacional (especialmente de commodities cruciais como o petróleo), para formar reservas cambiais e para denominar a maior parte da dívida internacional, precisa de dólares. Cerca de 60% das reservas globais de moedas estrangeiras estão em ativos denominados em dólar.
2. Financiamento perpétuo : os dólares que os EUA emitem para pagar suas importações (e, assim, gerar seu déficit comercial) não desaparecem. Eles são reinvestidos no mercado financeiro americano, principalmente na compra de títulos da dívida do Tesouro dos EUA. Em outras palavras, o resto do mundo financia a dívida americana. Os EUA, literalmente, imprimem a moeda que usam para comprar bens e serviços de outros países, e esses mesmos países usam essa moeda para financiar o emissor.
3. Cartão de crédito ilimitado : essa dinâmica permite aos EUA incorrer em déficits comerciais e fiscais gigantescos e persistentes sem enfrentar uma crise cambial ou uma fuga de capitais imediata, um destino comum para nações cujas moedas não possuem o mesmo status global. É como ter um “cartão de crédito dourado, sem limite de crédito e sem cobrança de dívida”.
O imperialismo para além da bomba
A superioridade americana, historicamente associada ao seu poderio militar e à “bomba” nuclear, hoje é igualmente, senão mais sutilmente, sustentada pelo poder financeiro do dólar.
• Exportação de problemas : o privilégio de emitir a moeda global permite aos EUA exportar seus problemas econômicos. Quando o Federal Reserve (o Banco Central americano) adota políticas monetárias expansionistas, injetando trilhões de dólares na economia (como ocorreu em 2008 ou 2020), o excesso de liquidez e os riscos inflacionários são, direta ou indiretamente, absorvidos pelo resto do mundo.
• A “arma” das sanções : o domínio do dólar no sistema de pagamentos global (ancorado em redes como o Swift) confere aos EUA uma poderosa arma geopolítica: as sanções financeiras. Ao ameaçar excluir países do acesso a transações em dólar, Washington pode isolar nações inteiras (como Irã e Rússia) do sistema financeiro internacional, exercendo pressão política e econômica que transcende fronteiras e negociações diplomáticas.
• Controle e vigilância : toda a arquitetura do sistema financeiro, centrada em Nova York, permite aos EUA um grau de vigilância e controle sobre as transações globais que nenhum outro país possui, reforçando sua capacidade de impor sua vontade.
O persistente déficit comercial americano, impulsionado pela demanda interna fortalecida, não é um sinal de fraqueza a ser corrigido, mas sim uma peça de engrenagem crucial para a sustentação desse sistema.
Enquanto a alta das importações (como visto em julho de 2025) alimenta a economia americana com bens e serviços, o “custo” dessa farra consumista é pago com a simples emissão de papel-moeda, cujo retorno é garantido pela necessidade estrutural que o resto do mundo tem de usá-lo.
O dólar não é apenas uma moeda; é o cartão de crédito da hegemonia americana, permitindo que os Estados Unidos transformem um passivo econômico em um pilar inabalável de seu poder imperial.
Conclusão
Essa dependência sistêmica, que permite aos EUA resolver seus problemas internos com a simples emissão de papel e armar sua política externa com o isolamento financeiro, tem motivado movimentos globais pela busca de alternativas.
Nesse contexto, a articulação de blocos como o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e o engajamento do Brasil em buscar a desdolarização progressiva de sua economia, especialmente nas transações comerciais com seus principais parceiros, emerge como o caminho estratégico e correto.
Ao reduzir a vulnerabilidade ao “privilégio exorbitante” americano e construir mecanismos de comércio em moedas locais ou em alternativas multilaterais, o Brasil e outros países buscam resguardar sua soberania econômica e diminuir o imposto inflacionário e a pressão geopolítica que a hegemonia do dólar historicamente impôs ao resto do mundo.
O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
