Nobel de María Corina, quase nada de Paz e muito de divisão
Dedicado a Trump e articulado por Marco Rubio, o Nobel concedido à golpista venezuelana expõe a politização de um prêmio que já teve mais prestígio.
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 10/10/2025 às 19:14 | Atualizado em: 10/10/2025 às 19:16
A escolha de María Corina Machado como vencedora do Nobel da Paz de 2025 marcou um dos episódios mais controversos da história recente do prêmio.
Conhecida por seu discurso inflamado contra o chavismo e por alinhar-se a figuras da extrema-direita internacional, María Corina comemorou a conquista dedicando o prêmio a Donald Trump, o líder mundial da extrema-direita a quem chamou de “símbolo da liberdade no continente”.
Em todo o mundo choveu de declarações críticas ao Nobel tão logo saiu o anúncio da premiada. Até ela se disse surpresa com a escolha.
A grande pergunta que norteia esta análise é direta e inevitável:
Que papel María Corina desempenhou pela paz, em seu país ou no mundo?
Perfil tem nada de paz
Engenheira industrial e ex-deputada, María Corina lidera o partido Vente Venezuela e construiu sua imagem sobre o discurso de “resgate da liberdade” e “ruptura com o socialismo”.
Mas, para boa parte dos analistas, inclusive do site ICL Notícias, essa narrativa esconde uma trajetória marcada pelo radicalismo político e pela proximidade com a extrema-direita internacional.
O ICL descreve a premiada como “figura ultraliberal e antipetista da política venezuelana”, lembrando que ela apoiou o golpe de Estado de 2002, conhecido como Carmonazo.
Maria Corina apoiou o empresário Pedro Carmona dissolver as instituições e tentar depor Hugo Chávez, o que conseguiu por poucas horas.
Na ocasião, María Corina assinou o decreto de dissolução, embora hoje alegue que “apenas registrou presença” no evento.
O episódio, no entanto, permanece como mancha histórica e contradição moral que foi impossível não recordar diante do prêmio criado para reconhecer os que atuam pela paz e reconciliação no mundo.
Além disso, hoje María Corina, assim como os Bolsonaros, se dedica a defender sanções internacionais à Venezuela e, também igualmente, estimula rupturas institucionais e apoia abertamente a intervenção estrangeira como solução política na sua pátria.
Como a ação de Trump de deslocar grandes navios de guerra para a costa da Venezuela.
Sua trajetória, portanto, está muito mais próxima de estratégias de confronto do que de iniciativas pacificadoras.
Contradição do prêmio
María Corina é reconhecida na Venezuela como símbolo de resistência contra o governo Maduro, que considera autoritário.
A contradição do prêmio a ela está em que o Nobel da Paz deve premiar quem promove conciliação, não resistência.
Não há registro de que ela tenha promovido diálogos, liderado negociações ou atuado em processos de reconciliação nacional.
Seu capital político foi construído sobre ruptura, enfrentamento e pressão externa.
Dessa forma, o prestígio de um prêmio que, em outros tempos, reconheceu mediadores, pacificadores e construtores de pontes, foi afetado nesta edição.
O Nobel da política, não da paz
A indicação de María Corina foi formalmente apresentada por Marco Rubio, então senador republicano e hoje Secretário de Estado dos EUA sob o governo Trump.
Esse detalhe, por si só, revela o caráter geopolítico e ideológico da escolha.
Não foi um reconhecimento espontâneo de movimentos humanitários, mas o resultado de uma campanha diplomática norte-americana que buscava reafirmar o discurso antichavista e isolar o governo de Nicolás Maduro.
Ao dedicar o prêmio a Trump, o líder político dos Estados Unidos que tentou reverter o resultado das eleições americanas de 2020 e que incitou atos violentos em 6 de janeiro de 2021, María Corina consolidou a percepção de que o Nobel da Paz passou a celebrar militâncias políticas, e não mediações de conflito.
“Premiar uma figura que endossou golpes e prega sanções é desfigurar o sentido da paz”, resume o comentário do ICL sobre a escolha.
Reações de desconforto e ironia
A premiação da paz, dessa forma, fomentou mesmo foi a divisão mundial.
O presidente russo Vladimir Putin, aliado de Maduro, ironizou:
“Há casos em que o Nobel da Paz foi dado a pessoas que nada fizeram pela paz”.
No Brasil, o assessor especial de política externa Celso Amorim afirmou à CNN que o comitê “priorizou política, não paz”, acrescentando que a decisão “parece mais geopolítica do que ética”.
Mesmo entre setores moderados da oposição latino-americana, a crítica se repete: a escolha de María Corina reforça polarizações e deslegitima a neutralidade histórica do prêmio.
A pergunta que ecoa
Diante desse cenário, o Nobel de 2025 deixa mais dúvidas que respostas:
- • O prêmio ainda simboliza a busca pela paz ou se tornou uma ferramenta de validação ideológica?
- • Ao reconhecer figuras polarizadoras, o comitê não está aprofundando os conflitos que deveria mitigar?
A resposta está no silêncio das ruas da Venezuela, onde a paz continua distante, e o prêmio, cada vez mais, parece pertencer a outro campo de batalha.
Foto: reprodução/redes sociais
