Essa vilã chamada cultura (parte 2)

Em resumo: imitamos apenas o que há de pior na cultura ianque, e sempre de forma subserviente, econômica e espiritualmente

Por Célio Cruz

Publicado em: 08/10/2025 às 22:47 | Atualizado em: 08/10/2025 às 22:47

Não se trata exatamente de uma continuação, mas de um desdobramento de um artigo que publiquei no BNC Amazonas há algum tempo. Naquela ocasião, escrevi sobre o desprezo do Brasil pela própria cultura e, de modo mais amplo, pelo conhecimento. 

Também destaquei a obrigação moral daqueles que não foram mordidos pelo monstro da desmemória e da ignorância: a de resgatar, da forma mais humana possível, os que foram contaminados. Estes, afinal, também são vítimas das sequelas que acompanham a mordida: ódio, alienação e o vazio que se instala quando a memória e o pensamento crítico são sufocados.

Educados pelo Rin-Tin-Tin

Durante muito tempo, fiquei intrigado com o motivo de sermos tão colonizados culturalmente pelos Estados Unidos. A ponto de milhares de brasileiros sonharem em morar lá, falar mal do Brasil de lá, entregar tudo “pros gringos”, saudar e jurar a bandeira norte-americana, querer ter aqui a vida que só existe lá. 

Passamos a falar e a pensar em inglês, a batizar os filhos com nomes importados – e até inventados –, como bem lembrou o querido amigo compositor Nicolas Júnior: Cleide Daiane e Maicon Nadisson. Criamos também palavras supostamente inglesas, mas inexistentes por lá, como outdoor e pocket show, observação que ouvi do amigo jornalista, tradutor e cantor de jazz Humberto Amorim. Eis o “American way of life”, eterno e totalizante: forever and for all!

Mas, pera lá – como se diz em legítimo caboquês – os gringos defendem seu país. E o Brasil, historicamente, não? Pois é, aí mora o xis da questão. Esse misto de imitação e adoração não vem da cultura norte-americana como um todo, mas de uma parte específica. E, para mim, justamente da parte pior, mais apelativa, brutal e sedutora: armas, guerras, violência, inimigos, glamour, sociedade de consumo e, acima de tudo, ódio aos comunistas.

Quem de fato nos educou foi o Rin-Tin-Tin e toda a turma de símbolos estadunidenses que o cinema e a TV despejaram por décadas. Até hoje, nas operadoras de TV, há sempre a distinção: “filmes”, “filmes nacionais” e “filmes estrangeiros”. Curiosamente, “estrangeiro” significa tudo o que não é brasileiro… nem norte-americano. Está aí, talvez, a explicação para Bolsonaro ter proclamado, em visita à matriz: “O Brasil e os Estados Unidos acima de tudo!”, nos tempos em que ainda podia sair de casa. 

A molecada queria ser caubói

Por que o Rin-Tin-Tin? Lembrei do meu tempo de menino, quando a TV chegou a Manaus trazendo o cinema e as séries estadunidenses: os westerns. Ganhei vários revólveres de espoleta de presente de Natal, e a molecada toda queria ser caubói ou soldado da cavalaria “americana”. 

Mas quem fez sucesso mesmo foi o Rin-Tin-Tin. Para ele (e para os heróis que vieram depois), o inimigo era o índio, sobretudo as tribos “mais rebeldes”, sempre retratadas como cruéis, prontas a flechar os “heróis norte-americanos”. Heróis que, de forma sutil, também eram apresentados como nossos heróis.

Nada contra o Rin-Tin-Tin, que parecia até um cachorro simpático, fiel e atencioso. Mas o herói-cão serve aqui para evidenciar o grau de desumanidade da educação brasileira. Afinal, o pensamento dominante do cinema estadunidense invadiu os lares brasileiros de forma devastadora, mecanicista, pragmática, exploradora, racista, misógina, sexista, religiosa, homofóbica e, sobretudo, anticomunista.

Uma imitação malfeita

No plano educacional, que complementa o cultural, não foi diferente. A chamada “escola nova”, implantada no Brasil, não passou de uma imitação malfeita de um sistema educacional dos EUA, tema que mereceria um artigo exclusivo. 

Não houve imitação, contudo, na qualidade da educação (privada), nem na cultura ou no esporte. Vale lembrar que, em 2014, uma escola considerada a melhor do ensino médio norte-americano utilizava o método Paulo Freire, justamente aquele satanizado pelo governo brasileiro anterior (vixe, vixe, como diria o essencial Professor Ribamar Bessa).

Lá nos States, por exemplo, a maconha é pesquisada há décadas e utilizada no tratamento de várias doenças graves, como o câncer, o Alzheimer, o Parkinson, a epilepsia, entre outras. Aqui, porém, a tal moral (ou estupidez, para ser mais preciso) judaico-cristã – que talvez tenhamos até inventado à nossa maneira – não permite sequer tocar no assunto.

Em resumo: imitamos apenas o que há de pior na cultura ianque, e sempre de forma subserviente, econômica e espiritualmente. Até a revolta dos idiotas com o resultado das eleições importamos. Nesse ponto, entretanto, graças à vitória de Lula e à firmeza do ministro Alexandre de Moraes, estamos nos saindo bem melhor.

Imitamos mal gringos

Não gostamos de museus, nem de poetas locais, sobretudo destes. Tampouco de livros e bibliotecas, ou de artistas da terra, salvo raras exceções: desde que colaborem e se comportem, tudo bem. Entre nós, escritor bom é aquele que, sendo em geral funcionário público, “não faz nada”.

Nisso, não imitamos os gringos. Também não nos interessamos por reforma agrária, como eles fizeram; não ligamos para saneamento, boas ruas, estradas ou calçadas, nem para rigores sanitários. O que queremos é produção rápida, com agrotóxicos, serviços inseguros, pouco confiáveis, mas altamente lucrativos. Afinal, o objetivo é ter dinheiro e sucesso para nos tornarmos americanos o quanto antes. Ir para lá, como fez Joesley Batista. 

Aliás, se não tivesse transferido 80% dos negócios da JBS (que, segundo diziam, era “do filho do Lula”, lembram?), hoje estaria na mesma fila da recuperação judicial que engoliu a Odebrecht, consequência direta da autodenúncia brasileira, levada a cabo pelos honestíssimos e seríssimos membros do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, órgãos norte-americanos na essência.

Alienação e falta de memória

Essas facetas de alienação cultural e falta de memória brasileira – com farta dose de ódio à cultura, à educação, à ciência e ao meio ambiente, além da aversão aos “comunistas maus” que defendem esses setores e do desprezo pelas minorias – estão bem visíveis no momento político atual. 

Na verdade, elas revelam, com todas as luzes, a entrega do patrimônio nacional, a quebradeira da economia, o desemprego crescente e o aumento da violência e da desigualdade social, tendo como pano de fundo apenas a disputa eleitoral prorrogada entre militantes bolsonaristas e petistas.

Convém destacar, no entanto, que para os apoiadores e simpatizantes do ex-presidente trata-se de gente “comprometida com a recuperação nacional”, que estaria fazendo a “nova política” e livrando o Brasil dos “petistas e comunistas imorais”. Afinal, petista, nessa lógica, é qualquer um que discorde do, digamos, bozoway (em inglês macarrônico). 

E o PT, transformado em monstro universal, seria o maior partido do mundo, agregando não só Chico Buarque, Dilma e Lula, como também o Papa Francisco, Roger Waters e até o prefeito de Nova York. Comunistas, claro! Ô praga! Sempre em busca de alguma “mamata cultural”.

Considerações finais

Estamos, de fato, experimentando o tal déficit civilizatório, expressão cunhada pelo ministro Luís Roberto Barroso. Nosso desafio atual tem sido garantir o mínimo de civilização diante da barbárie oficialmente promovida, cujos principais alvos são a cultura, a educação, a ciência e o meio ambiente. 

Nesses momentos em que a própria vida é perseguida, a poesia se torna ainda mais necessária. Mais do que nunca, é preciso ouvir, ler e dizer, a plenos pulmões, o verso do velho combatente Thiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto.”

O autor é compositor, pedagogo e advogado.

Imagem: Gerada por inteligência artificial