Tarcísio imita Bolsonaro na covid e ironiza mortes por metanol

Governador de SP diz que só vai se preocupar “quando falsificarem Coca-Cola” e nega envolvimento do PCC na adulteração das bebidas

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 07/10/2025 às 14:15 | Atualizado em: 07/10/2025 às 14:15

Enquanto o estado de São Paulo confirmava a terceira morte por intoxicação por metanol, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) reagia à crise com ironia.

Questionado sobre o avanço das investigações e as suspeitas de ligação com facções criminosas, o governador bolsonarista afirmou que só vai se preocupar “quando falsificarem Coca-Cola” e que “não há qualquer evidência de participação do PCC” nos casos.

A fala, feita no dia 6 de outubro, soou especialmente cruel: naquela mesma data, Bruna Araújo de Souza, de 30 anos, morria em São Bernardo do Campo após dias internada por ter ingerido bebida destilada adulterada.

O episódio reforçou a percepção de descaso do governador paulista diante de um surto que já soma dezenas de vítimas e prisões em todo o estado.

Ironia e irresponsabilidade

Tarcísio chegou a instalar um gabinete de crise, mas se apressou em negar a participação do Primeiro Comando da Capital (PCC), mesmo após 20 prisões relacionadas à falsificação de bebidas.

Segundo o governador, “os casos não apresentam ligação entre si” e a preocupação deve ser proporcional à gravidade do problema. Essa frase se tornaria alvo imediato de críticas nas redes e entre autoridades sanitárias.

“Vou me preocupar quando falsificarem Coca-Cola”, disse Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo

Esse comportamento de Tarcísio de relativizar mortes e minimizar a responsabilidade institucional ecoou, para muitos, a atitude irresponsável e insensível de Bolsonaro durante a pandemia de covid-19.

Parecidos

Durante o horror da população brasileira, vivido sobretudo em 2021 e 2022, Bolsonaro ironizou vítimas ao imitar pessoas com falta de ar e reagiu ao aumento das mortes com a frase “não sou coveiro”.

Bolsonaro chega a imitar uma pessoa com falta de ar em frente a apoiadores, gesto amplamente criticado por entidades médicas e famílias de vítimas.

E ambas foram lembradas agora como símbolos de desprezo pela dor coletiva das famílias.

“E daí? Não sou coveiro”.
— Jair Bolsonaro, em 2020, ao comentar mortes por coronavírus.

Assim como o seu padrinho político, Tarcísio preferiu recorrer à piada e à negação no lugar da empatia e da transparência.

Em suma, ambos os casos da covid e metanol, a autoridade pública máxima adota a linguagem do descompromisso:

O humor de mau gosto desloca o debate da tragédia para o anedótico, em uma tentativa frustrada de anestesiar a indignação pública.

Enquanto familiares das vítimas cobram respostas e medidas preventivas, o governador mantém o tom de leveza e negação, repetindo a postura de seu mentor na política.

Olho nele!

Quem é Tarcísio de Freitas?

– Ex-ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro e atual governador de São Paulo, filiado ao Republicanos. É visto como um dos herdeiros políticos do ex-presidente na direita nacional.

– Sua gestão de São Paulo põe em xeque a credibilidade para uma crise que exige ação coordenada e respostas céleres.

– Além disso, as falas públicas de Tarcísio expõem o mesmo despreparo de Bolsonaro para se comunicar com as pessoas e a insensibilidade diante da dor alheia.

O papel de Bolsonaro na pandemia estabeleceu o padrão de ironia e desprezo pelo brasileiro diante de tragédias, comportamento agora reproduzido fielmente por Tarcísio.

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil