‘Copão’ e o perigo invisível do metanol em Manaus

Mesmo sem casos de intoxicação por metanol, descoberta de fábrica clandestina e popularização do “copão” acendem alerta para o consumo de destilados sem procedência.

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 06/10/2025 às 21:01 | Atualizado em: 07/10/2025 às 06:27

Mesmo sem registros de intoxicação por metanol no Amazonas, a descoberta de um laboratório clandestino de bebidas falsificadas na zona leste de Manaus acendeu um alerta entre autoridades de saúde e segurança pública.

O episódio coincide com o avanço de casos de envenenamento por metanol em outros estados e com a popularização do “copão”, mistura alcoólica servida em bares e adegas da capital.

copão — geralmente preparado com uísque, gin ou vodca, energético e um picolé saborizado — virou moda entre jovens e mulheres. O problema é que, em muitos pontos da cidade, o produto é servido com destilados de origem desconhecida, comprados a granel ou revendidos sem lacre original.

Fábrica clandestina

A Polícia Militar, por meio da Ronda Ostensiva Cândido Mariano (Rocam), desativou no mês de setembro uma fábrica ilegal de bebidas na rua Doutor Alecrim, bairro Jorge Teixeira, zona leste de Manaus.
O local funcionava como laboratório clandestino de falsificação de destilados e foi descoberto após denúncia anônima.

No imóvel, os agentes encontraram 94 garrafas prontas ou em processo de envase, além de 54 selos falsos, 84 tampas e duas garrafas de xarope usadas para alterar a cor e o sabor das bebidas.

Havia ainda pilhas de rótulos falsificados e equipamentos improvisados, que simulavam uma linha de produção de marcas conhecidas.

Dois homens que faziam a segurança do imóvel foram presos em flagrante e levados ao 14º Distrito Integrado de Polícia (DIP). A Polícia Civil investiga agora a origem dos produtos e a possível rede de distribuição.

“A estrutura era completa e mostrava que havia um esquema organizado para falsificação. O risco é que esse tipo de bebida adulterada chegue a consumidores em bares e festas sem que ninguém perceba”, afirmou um policial que participou da ação.

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Adegas e o “copão”

O fenômeno do copão se espalhou por adegas, nome moderno para bares, especialmente nas zonas norte e leste de Manaus, mas já é comum em todas as áreas da cidade.

Esses pontos de encontro cresceram rapidamente, impulsionados por preços baixos e consumo coletivo.

Em muitos casos, a fiscalização é limitada. A ausência de rótulos, procedência duvidosa dos destilados e manipulação sem higiene adequada elevam o risco de contaminação por álcool metílico (metanol), substância altamente tóxica que, se ingerida, pode causar cegueira, convulsões e até a morte.

Segundo especialistas, o perigo maior é invisível: 

“O metanol não altera sabor ou cheiro. Quando misturado a outros líquidos, o consumidor não percebe”.

Alerta e recomendações

A Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) informou que até estes dias 6 de outubro não há registro de casos de intoxicação por metanol no estado, mas reforçou a vigilância em portos e distribuidoras.

Já o Ministério Público do Amazonas (MP-AM) recomendou que secretarias de saúde adotem medidas preventivas e monitorem bares, adegas e depósitos de bebidas.

⚠️ É bom saber antes de beber

RiscoSinais de bebida adulteradaO que fazer
Intoxicação por metanol pode ocorrer em poucas horasFalta de selo de autenticidade, rótulo mal colado, preço muito abaixo do mercadoProcure uma unidade de saúde se tiver visão turva, náusea ou dor abdominal após o consumo
O metanol não tem cheiro nem saborGarrafas abertas ou reabastecidas com líquidos diferentesDenuncie ao 190 ou à vigilância sanitária
Consumo recorrente de bebidas sem procedência pode causar danos permanentesBebidas coloridas e doces, misturadas em recipientes improvisadosOriente amigos e familiares a evitar consumo em locais suspeitos

Um problema de saúde e fiscalização

Embora a zona leste concentre parte das apreensões e denúncias, o consumo de misturas alcoólicas improvisadas ocorre em toda Manaus, dos bairros centrais às áreas periféricas.

O desafio é garantir fiscalização constante, educação sanitária e campanhas acessíveis, sem estigmatizar regiões populares.

O alerta sobre o copão é, portanto, um chamado à responsabilidade compartilhada: entre poder público, comerciantes e consumidores.

Foto: reprodução/redes sociais