Texto para um amigo e irmão

Em seu artigo deste sábado, o sociólogo Aldenor Ferreira fala de sua amizade com Neuton Corrêa, fundador do BNC AMAZONAS

Texto para um amigo

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 04/10/2025 às 00:00 | Atualizado em: 04/10/2025 às 06:14

Conheço Neuton Corrêa desde os tempos em que ele ainda cursava o Ensino Médio em Parintins. Nossas raízes se entrelaçam na rua 31 de Março, onde a infância se confundia com as cores, os cheiros e os sabores dos quintais, entrelaçados ao rumor dos barcos que cortavam o rio Amazonas.

Foi daquela rua simples, de chão marcado pelas chuvas e pela vida cotidiana, que seguimos em busca de horizontes maiores. Levamos conosco a memória das margens do rio e a certeza de que a Amazônia não é apenas um território distante: ela habita nossas palavras, nossas escolhas e o modo como aprendemos a olhar o mundo.

Estudo, família e casamento 

Neuton foi estudar Filosofia na Ufam e eu, Ciências Sociais. Dois trabalhadores tentando conciliar estudo e sobrevivência, não tivemos muita convivência nos anos de graduação em Manaus. Isso mudou em 2008, quando ingressamos juntos no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

No mestrado, partilhamos livros, reflexões, cafés e artigos escritos em parceria. A convivência, porém, durou pouco: dois anos após a conclusão do mestrado, mudei-me para São Paulo. Mas nossa amizade já havia ganhado contornos de família. Neuton é, com orgulho e afeto, meu padrinho de casamento.

Ele e Darci atravessaram o país para participar daquele momento especial, em que eu e a doutora Luciana Menegaldo juntávamos nossas escovas de dentes. E foi das mãos desse caboclo parintinense que recebi o presente de casamento mais original de todos: um quilo de farinha de mandioca! Esse gesto resume muito do que é Neuton: simplicidade, afeto e raízes amazônicas sempre presentes.

Neuton jornalista

Mas se até aqui falei do Neuton amigo, é preciso lembrar também do profissional competente, que fez do jornalismo sua travessia. Começou cedo, na Rádio Alvorada de Parintins, e construiu, ao longo de quase de 40 anos de profissão, uma trajetória marcada pela ética e pela coragem, sem jamais precisar puxar o tapete de ninguém.

Vindo de baixo, Neuton conquistou com talento e perseverança um lugar de respeito, tornando-se referência no jornalismo do estado do Amazonas. Sua história é a prova de que não há atalhos fáceis quando se escolhe a dignidade como caminho: cada conquista foi fruto de trabalho árduo, coragem diante das pressões e compromisso com a verdade. Por isso, seu nome é reconhecido por colegas, fontes e leitores como sinônimo de seriedade e credibilidade.

Formado em Jornalismo, levou para a profissão o olhar crítico da Filosofia e a paixão pelo fato rigorosamente apurado. É um jornalista intelectual, inquieto, amante da ciência, artesão da palavra e do gesto. Mais do que registrar o mundo, abriu portas para que outros também pudessem narrá-lo, formando novos profissionais com generosidade e firmeza.

Conclusão

Concluo este texto lembrando Montaigne que, em seu ensaio Da amizade, escreveu: “a amizade é uma alma em dois corpos”, e acrescentou que ela se nutre de comunicação. Talvez seja isso o que melhor define meu vínculo com Neuton: não apenas a partilha de histórias, mas a certeza de que caminhamos lado a lado, ainda que por estradas diferentes. 

Nesse sentido, celebrar sua trajetória é também celebrar a força desse laço raro, feito de confiança, respeito e afinidade. Um bem tão duradouro quanto a própria palavra que ele escolheu como destino: o jornalismo.

*O autor é sociólogo

Arte: Gilmal