Manaus é refém da barbárie sobre duas rodas no trânsito
Atropelamento de idosa expõe falta de fiscalização e crescimento descontrolado de motociclistas ilegais na capital. | Leia o artigo
Por Aguinaldo Rodrigues*
Publicado em: 26/09/2025 às 11:59 | Atualizado em: 03/10/2025 às 10:17
O atropelamento e morte de uma idosa de 73 anos nesta quinta-feira, 25 de setembro, não são apenas mais uma estatística trágica do trânsito em Manaus. São um símbolo do caos que impera nas ruas da capital. Trata-se de uma realidade diária alimentada pela ausência de fiscalização, pela omissão dos órgãos públicos e pela liberdade quase absoluta com que motociclistas transformaram a cidade em território sem lei.
Segundo dados recentes, 57,3% das mortes no trânsito do Amazonas em 2025 envolvem motociclistas. Dessas ocorrências, 72 resultaram em vidas perdidas de condutores de motos.
E, mesmo assim, a resposta do poder público permanece tímida, burocrática e ineficaz.
Um levantamento nacional expôs o que o cidadão de Manaus sente na pele todos os dias: o Amazonas é o pior estado do país para se dirigir, com nota 1,86 em segurança viária, a última entre as 27 unidades da federação.
Leia mais
Motos, motociclistas e buracos em Manaus
Motoqueiros fora de controle
Motociclistas em Manaus dirigem sem habilitação, rasgam ruas em alta velocidade, ignoram sinais, invadem faixas de pedestres, quebram retrovisores e amassam carros. E, quando confrontados, agem de forma corporativa: ameaçam, intimidam e até agridem.
A violência é tão banalizada que quem ousa reclamar se arrisca a ser espancado ou morto.
E há ainda a praga das motos com descargas cortadas, que perturbam o sossego, poluem o ar e simbolizam a total falta de controle urbano.
Muitos desses veículos, longe de serem apenas instrumentos de trabalho, alimentam também a logística do tráfico de drogas, circulando livremente sob os olhos da polícia e dos órgãos de trânsito.
Leia mais
Manaus insegura: homem é perseguido e linchado por motoqueiros de entregas
Silêncio cúmplice
Os órgãos de trânsito do estado e do município limitam-se a campanhas pontuais e operações de efeito midiático.
Não há um plano estruturado de combate aos abusos, nem campanhas permanentes de educação e fiscalização.
Fora do centro da cidade, onde agentes de trânsito agem mais para multar do que para orientar, a sensação é de abandono completo: o trânsito é regido pela lei do mais forte.
Como dizem os condutores, agente de trânsito é visagem nos momentos mais tensos e problemáticos do dia a dia de grandes vias, como Grande Circular, em direção ao distrito industrial, nas avenidas das Torres, V8 e no chamado “rapidão”, e por aí vai. Carretas e caminhões circulam em Manaus a hora que bem entendem, acuando motoristas de carros menores.
Enquanto isso, cresce o número de motos (já são mais de 339 mil na capital, segundo a prefeitura) e se multiplica a massa de condutores sem habilitação, sem regras e sem medo de punição.
Leia mais
Mais da metade dos motociclistas de Manaus não tem habilitação
Um chamado à ação
A cada vítima, repete-se o roteiro: indignação popular, notas oficiais mornas e nenhuma mudança estrutural. Até quando?
É urgente que os órgãos de trânsito, a segurança pública e o Ministério Público encarem a realidade: Manaus não pode continuar refém da barbárie sobre duas rodas.
Se não houver repressão firme aos motoqueiros infratores, fiscalização constante nos bairros, retirada imediata das motos ilegais de circulação e campanhas sérias de educação, novas mortes continuarão a acontecer.
E a população seguirá impotente e vulnerável.
*O autor é cidadão e condutor de veículo.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
