A direita não sabe perder

Da queda de Dilma ao 8 de janeiro: a trajetória da direita que se recusa a aceitar derrotas

Mariane Veiga, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 22/09/2025 às 21:55 | Atualizado em: 22/09/2025 às 21:55

Quantos não se lembram de que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, resultou, entre outros, da não aceitação de seu então adversário Aécio Neves, que saiu derrotado por uma mulher em uma disputa presidencial, em 2014.

Eleita para o primeiro mandato de presidente da República em 2010, Dilma foi a primeira mulher a ocupar o cargo na história da política brasileira.

De volta ao posto de senador após a derrota, Aécio chegou a ir às ruas durante os protestos contra a segunda gestão de Dilma e disse que “qualquer saída” era válida para tirá-la da presidência.

Ao se recusar a aceitar a derrota, o político, juntamente com outros personagens centrais como Eduardo Cunha, os juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal, hoje deputada bolsonarista, foi um dos que encabeçou uma campanha contra Dilma, que viveu sua maior crise política, à época, e chegou a ser destituída do poder.

Com partidos políticos da oposição, especialmente MDB, PSDB, movimentos de direita, setores conservadores, somados aos protestos Brasil afora, Dilma caiu, por “pedaladas fiscais”. Com isso, seu vice, Michel Temer, outro rosto da direita brasileira, assumiu o comando do país.

No entanto, Temer logo foi sucedido pelo radical Jair Bolsonaro, eleito presidente da República em 2018, em uma disputa na qual derrotou Fernando Haddad, do PT, em segundo turno, ocasião em que ele já mostrou as “garras” e iniciou o discurso de desconfiança no sistema eleitoral brasileiro. Ele seria outro que, mais para frente, assim como Aécio, não aceitaria ‘perder’.

Entre tantos desastres e despreparo que foi a sua gestão, Bolsonaro nem sequer passou a faixa presidencial após a derrota nas eleições de 2022. Ele, que foi o primeiro presidente a não conseguir se reeleger.

Desde que a reeleição passou a ser permitida no Brasil, em 1997, todos os presidentes que tentaram a reeleição foram reeleitos. Com a exceção de Temer, que não chegou a se candidatar.

Se recusar a seguir os ritos diplomáticos, por mais simbólico que seja, de transição de governo era apenas o início do que o político de extrema direita viria a cultivar.

Hoje, condenado a 27 anos de prisão por organização criminosa armada; tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; golpe de Estado; dano qualificado pela violência e ameaça grave; e deterioração de patrimônio tombado,Bolsonaro passou os últimos anos inflando seus seguidores a não aceitar a sua derrota de 2022.

O que nos remete ao fatídico 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes bolsonaristas vindos de várias cidades e de acampamentos em frente a quartéis do Exército invadiram e depredaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.

Com a condenação de Bolsonaro e outros militares, o PL, seu partido, atua continuamente para pressionar o Congresso por anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro, principalmente para livrar o ex-presidente.

Aliado a isso, um de seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, eleito por São Paulo, solicitou, em março, afastamento do cargo por 120 dias por “interesses pessoais” e outros dois dias para “tratamento de saúde”.

Desde então, tudo o que se pôde acompanhar foi uma atuação do parlamentar de forma coordenada para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) e interferir no andamento da ação penal que tem seu pai no núcleo central, inclusive com sanções estrangeiras do presidente dos EUA, Donald Trump, um político extremista e radical, o qual os “Bolsonaro” tem proximidade e se vangloriam por isso.

Portanto, a direita, e especialmente a extrema-direita de Bolsonaro e seus aliados, age pautada nos seus próprios interesses.

De volta ao Brasil, o PL, de Bolsonaro, além de “trabalhar” por anistia “ampla, geral e irrestrita” aos condenados pelos atos golpistas do 8 de janeiro e promover motins, ajudou recentemente a aprovar uma proposta de emenda à Constituição (PEC) da ‘blindagem’, que proíbe a abertura de ações criminais contra deputados e senadores sem autorização do parlamento, o que pode favorecer a corrupção no uso das emendas parlamentares. O partido contou com 83 votos a favor da medida.

Envolta em discursos retrógrados, autoritários e polarizadores, que colocam a política em termos de “nós contra eles” ou o “bem contra o mal”, a direita brasileira costuma atacar instituições democráticas, espalhar desinformação e teorias conspiratórias, principalmente pelas redes sociais, para mobilizar apoiadores e enfraquecer o debate público racional, exaltar figuras militares, relativizando a ditadura, além de promover intolerância contra minorias, opositores políticos e movimentos sociais, quando se trata do jogo democrático, não sabe perder.

Fotomontagem: BNC Amazonas