A necessidade de cartel de minerais estratégicos dentro do Brics

Especialista defende cartel de minerais no Brics como estratégia de autodefesa econômica e geopolítica frente ao domínio ocidental.

Por Plínio César Coelho*

Publicado em: 20/09/2025 às 14:33 | Atualizado em: 20/09/2025 às 14:36

A ideia de que os países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) devem formar um cartel para controlar o mercado de minerais estratégicos é uma resposta pragmática às dinâmicas de poder da economia global.

Em um cenário onde o acesso a matérias-primas essenciais se torna uma arma geopolítica, o Brics tem uma oportunidade única de proteger seus interesses e reequilibrar o jogo. O níquel é um exemplo perfeito dessa dinâmica, sendo vital tanto para a transição energética “verde” quanto para o setor de armamentos.

O cenário de uma nova geopolítica de recursos

Por décadas, nações industrializadas do Ocidente, como os Estados Unidos e a Europa, dominaram o mercado de matérias-primas, moldando o comércio global a seu favor.

No entanto, a ascensão da China e o desenvolvimento dos outros membros do Brics mudaram esse cenário. Hoje, eles não são apenas fornecedores de mão de obra e produtos; eles são os detentores de recursos vitais para a indústria moderna.

A economia global está em uma corrida por minerais essenciais para a transição energética e a indústria de defesa, como terras-raras, lítio, cobalto e níquel.

  • * A China domina o processamento de terras-raras.
  • * A África do Sul é um dos maiores produtores de platina e cromo.
  • * O Brasil e a Rússia possuem vastas reservas de minerais.

Essa concentração de poder de produção é a base para a formação de um cartel.

A Rússia, por exemplo, é um dos maiores produtores de níquel do mundo, o que lhe dá uma enorme vantagem.

O níquel: o ponto de contato entre a ecologia e a defesa

O níquel ilustra perfeitamente a dupla importância de muitos minerais estratégicos. Ele é um componente essencial na produção de baterias de íon-lítio de alta performance.

Empresas como a Tesla e todas as fabricantes de veículos elétricos dependem diretamente do níquel como matéria-prima fundamental. Sem o níquel, a transição para uma economia de baixo carbono seria significativamente mais lenta e cara.

Por que um cartel é a resposta?

A formação de um cartel, seguindo o modelo da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), permitiria aos membros do Brics coordenar a produção e o preço desses minerais. Isso traria uma série de benefícios:

  1. 1. Valorização dos recursos : a experiência da Opep mostra que o controle da oferta eleva os preços, gerando mais receita para os países produtores. Com um cartel de minerais, o Brics poderia garantir que o valor desses recursos permaneça com eles, financiando seu próprio desenvolvimento e inovação tecnológica.
  2. 2. Segurança da cadeia de suprimentos : controlar o fluxo de minerais estratégicos permitiria aos membros do Brics priorizar o fornecimento uns para os outros. Isso fortaleceria suas próprias indústrias de defesa, tecnologia e energia renovável, tornando-as menos vulneráveis a sanções ou bloqueios comerciais de outras nações.
  3. 3. Influência geopolítica : o controle de recursos vitais é a base do poder. Ao coordenar suas ações, o Brics poderia desafiar o domínio ocidental e usar a posse desses minerais como uma alavanca nas negociações internacionais, garantindo uma voz mais forte em questões de comércio, meio ambiente e segurança.

Leia mais

Desafios e o futuro

Apesar dos benefícios, a formação de um cartel não seria isenta de desafios.

Diferentes interesses nacionais, a complexidade dos mercados de minerais e o risco de retaliação de potências ocidentais são obstáculos reais.

No entanto, o custo da inércia pode ser maior. Em um cenário onde as “guerras comerciais” se tornam a norma, a dependência de nações externas para tecnologia e bens essenciais pode ser um fator de grande vulnerabilidade.

O Brics tem a oportunidade de redefinir as regras do jogo. A formação de um cartel de minerais estratégicos não seria um ato de agressão, mas sim uma estratégia de autodefesa econômica.

Seria a garantia de que seu desenvolvimento não estaria sujeito a decisões tomadas em Washington ou Bruxelas, mas sim ao seu próprio poder e autonomia.

*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil