Nacionalismo cristão: uma ameaça ao pluralismo democrático

Conforme o articulista, "parte das igrejas evangélicas norte-americanas e brasileiras passou a refletir a imagem e a semelhança de políticos". Leia nas palavras do sociólogo Aldenor Ferreira

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 20/09/2025 às 01:01 | Atualizado em: 20/09/2025 às 07:00

Parafraseando Marx: um espectro ronda o Ocidente – o nacionalismo cristão. Brasil e Estados Unidos são a ponta de lança dessa ideologia político-religiosa nefasta que combina símbolos e narrativas da fé cristã com um projeto explícito de conquista do poder político governamental. 

Não se trata apenas de uma expressão de religiosidade na esfera pública, mas de uma corrente política organizada, com lideranças, bases sociais e estratégias de disputa institucional. Ao mesmo tempo, não configura uma filosofia no sentido rigoroso, já que não se dedica à reflexão crítica sobre a existência ou a ética; seu núcleo é a instrumentalização da fé como doutrina de poder.

O nacionalismo cristão norte-americano, introduzido rapidamente no Brasil, não confunde fé com política; ele subordina a política à fé de um grupo, fundindo identidade religiosa e projeto de poder. Tanto lá quanto aqui, essa corrente ganhou musculatura e vocabulário próprios. 

Pesquisas do Public Religion Research Institute (PRRI), sediado em Washington, mostram que o nacionalismo cristão norte-americano conta com um núcleo sólido de apoiadores e uma base ampliada de simpatizantes, suficiente para influenciar agendas eleitorais e institucionais.

Conforme a PRRI, esse projeto encontra lastro teológico no que se convencionou chamar de Teologia do Domínio (e em vertentes como o Seven Mountain Mandate), que prega “conquistar” os principais pilares da vida social – governo, educação, mídia, artes, negócios, família e religião – como mandato divino. Não é mais evangelização; é captura institucional. 

A Teologia do Domínio

A Teologia do Domínio, portanto, é uma engenharia social para a tomada do poder político. Trata-se, todavia, de uma hermenêutica e de uma exegese fraudulenta do texto bíblico. Seus defensores procuram resgatar passagens de triunfo, domínio e poder divino, bem como episódios de conquistas atribuídas a personagens importantes, como o Rei Davi. 

O Davi da Teologia do Domínio é o conquistador, aquele que aniquila e esmaga inimigos. Ele é o rei próspero a quem Deus disse: “Davi, filho de Jessé, é um homem segundo o meu coração; fará tudo o que for da minha vontade” (Atos 13:22-23). O que a Teologia do Domínio esconde é que Davi alcançou esse status não por conta de suas conquistas e glórias, mas pelo sincero arrependimento. 

A Teologia do Domínio esquece também que o Novo Testamento desloca a ênfase do triunfo e da guerra para o amor, o perdão, a compaixão e o serviço. Mas essa parte não interessa para sustentar o argumento do domínio. Nesse caso, a exegese vira ferramenta de engenharia social, revestindo ambições terrenas de linguagem sagrada.

O Evangelho de Cristo, pela Teologia do Domínio, assume outra feição. O efeito político é corrosivo. Saem de cena o amor, o perdão, a compaixão, a solidariedade, a fraternidade, a simplicidade, a convivência pacífica; entram a força, a conquista, o domínio, a subjugação, a violência, o ódio e a morte. 

Transformar adversários em inimigos

Nesse contexto, o nacionalismo cristão transforma adversários em inimigos morais; sacraliza líderes; e legitima a ideia de que a democracia só é legítima quando confirma “a vontade de Deus” tal como definida por seus intérpretes. É uma máquina de construção de fronteiras: quem diverge é tratado como ameaça à “nação cristã”. A sociologia do fenômeno tem mostrado justamente esse traço autoritário e excludente, não raro combinado com agendas identitárias conservadoras.

Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a tática se expressa na crescente sacralização do poder por segmentos do campo evangélico e na tentativa de submeter políticas públicas a doutrinas particulares: da escola ao parlamento. Não se trata de negar a presença legítima de religiosos na política, mas de recusar o atalho teocrático: quando a fé de um grupo busca se impor como norma civil, a liberdade de todos é que se perde.

Infelizmente, parte das igrejas evangélicas norte-americanas e brasileiras passou a refletir a imagem e a semelhança de políticos e de seus próprios líderes, homens avarentos, autoritários, antidemocráticos e incultos à semelhança de Jair Bolsonaro e Donald Trump. Ou seja, homens completamente despreparados para o exercício da política e da fé cristã. 

Considerações finais 

É contra esta teologia nefasta, contra este projeto político-religioso medieval que, em nome da sobrevivência da civilização, precisamos nos insurgir. O antídoto exige duas frentes. A Teológica: recuperar o núcleo do evangelho – amor ao próximo, misericórdia, perdão, solidariedade, humildade – contra sua captura belicista. A Cívica: radicalizar a democracia em sentido republicano – regras estáveis, instituições acessíveis, liberdade religiosa e laicidade do Estado, para que nenhuma crença (ou descrença) seja hegemônica.

O nacionalismo cristão é, hoje, uma ameaça real ao pluralismo democrático, comparável, em impacto sistêmico, aos desafios climáticos: ambos corroem as bases da convivência e ameaçam o nosso futuro comum. A resposta a isso tudo passa pela construção de uma fé sem domínio e de uma política sem unção.

*O autor é sociólogo.

Arte: Gilmal