A erosão da base científica do agro brasileiro: risco sistêmico e dependência tecnológica
Conforme Celso Ricardo Ferreira, a principal instituição de pesquisa agropecuária do Brasil sofre uma compressão orçamentária de quase 80% nos recursos discricionários entre 2014 e 2024
Por Celso Ricardo Ferreira*
Publicado em: 19/09/2025 às 05:58 | Atualizado em: 19/09/2025 às 08:17
O agronegócio brasileiro é reconhecido mundialmente como uma potência em volume e eficiência produtiva, mas essa posição estratégica está sob ameaça devido ao desmonte progressivo das instituições de ciência, tecnologia e inovação que sustentam o setor. O tripé formado por Embrapa, universidades federais e órgãos setoriais (Conab, Ceplac, Mapa) enfrenta cortes orçamentários, perda de capacidade técnica e ausência de previsibilidade, comprometendo o futuro do agro e, por extensão, da economia nacional.
Embrapa
A principal instituição de pesquisa agropecuária do Brasil sofre uma compressão orçamentária de quase 80% nos recursos discricionários entre 2014 e 2024. Apesar de um reforço parcial em 2025, unidades estratégicas, como a Embrapa Gado de Corte, já alertam para risco operacional, incapacidade de fechar as contas e ameaça à manutenção de ativos críticos (laboratórios, coleções biológicas e rebanhos experimentais). A consequência imediata é a redução do ritmo de inovação, abrindo espaço para dependência de tecnologia estrangeira.
Conab
Embora produza levantamentos técnicos fundamentais para a previsibilidade de safras, as revisões constantes e as divergências com o IBGE indicam necessidade urgente de padronização metodológica, auditorias independentes e transparência. A falta de governança de dados gera incerteza nos mercados, prejudica crédito, logística e a formulação de políticas públicas.
Ceplac
Enfraquecida desde a década de 1990, a Ceplac perdeu autonomia e protagonismo, justamente quando o mercado internacional de cacau apresenta uma janela de oportunidade. Sem recomposição de orçamento, equipes e estrutura, o Brasil corre risco de perder espaço em um setor onde qualidade, rastreabilidade e sanidade são diferenciais estratégicos.
Universidades federais e institutos
A instabilidade orçamentária e a execução de recursos concentrada no fim do ano comprometem o ensino, a pesquisa e a extensão. A formação de profissionais especializados em áreas como agronomia, zootecnia e engenharia de alimentos e a pesquisa aplicada — base para avanços tecnológicos no agro — estão sob ameaça.
Mapa e instrumentos transversais
A imprevisibilidade na execução de programas como o Seguro Rural desestimula investimento e inovação, levando produtores a decisões mais conservadoras e, consequentemente, a perda de competitividade.
O quadro revela um risco sistêmico: o Brasil, líder global em exportação de commodities agrícolas, está desmontando a infraestrutura de conhecimento que garante produtividade, inovação e soberania. Se não houver correção imediata — com financiamento híbrido, governança, previsibilidade e integração público-privada —, o país pode passar de exportador de tecnologia tropical a importador de soluções caras, perdendo protagonismo internacional.
Em suma, o agro brasileiro está colhendo hoje o resultado de uma década de subinvestimento em ciência: menor geração de valor, maior dependência externa e vulnerabilidade estratégica. A recuperação exige ação coordenada e visão de longo prazo, sob pena de comprometer uma das poucas áreas que garantem superávit comercial e estabilidade econômica ao país.
*O autor é consultor em Gestão Estratégica em Agronegócio
Arte: Gilmal
