Comissão de Infraestrutura do Senado questiona operação da PF

Senadores do Amazonas questionam operação que destruiu embarcações de garimpeiros no rio Madeira.

Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 16/09/2025 às 20:48 | Atualizado em: 16/09/2025 às 21:11

A Comissão de Infraestrutura (CI) do Senado vai cobrar esclarecimentos do Ministério da Justiça e Segurança Pública sobre a operação da Polícia Federal (PF) no sul do Amazonas, que destruiu dragas utilizadas por garimpeiros no rio Madeira, entre os municípios amazonenses de Manicoré e Humaitá.

A ação da Polícia Federal ocorreu nesta segunda-feira (15/9) e foi o principal tema de debate durante a reunião da Comissão de Infraestrutura.

Dessa forma, a comissão do Senado aprovou o envio de um “ofício verbal” com o pedido de informações.  O presidente da CI, senador Marcos Rogério (PL-RO), explicou que um ofício verbal, e não um ofício escrito – que demoraria mais tempo para ser enviado — terá uma resposta urgente.

Marcos Rogério reconheceu a importância do combate a atividades ilegais, mas criticou a forma como a operação foi realizada.

“Para enfrentar um crime, cometeram-se outros [crimes] graves contra o meio ambiente. A explosão de embarcações libera fumaça no ar, óleo no rio e compromete a fauna aquática. É fundamental que o Ministério da Justiça esclareça o que aconteceu”, declarou Marcos Rogério.

Impactos das ações

O ofício ou requerimento de informações foi apresentado pelo senador Plínio Valério (PSDB-AM) em coautoria do senador Omar Aziz (PSD-AM). E foi encaminhado já nesta terça-feira (16/9) ao ministério.

Senador Omar Aziz (PSD-AM) foi coautor do requerimento que cobra explicações sobre a operação. Foto: Ariel Costa/divulgação

Do mesmo modo, Plínio Valério solicitou que também fosse enviado um ofício escrito. O senador do Amazonas classificou a ação da Polícia Federal como um episódio de grande impacto social e ambiental.

“Foram cenas de apocalipse, que assustaram toda a comunidade e colocaram em risco a fauna, a flora e a subsistência de famílias que vivem há décadas às margens do rio Madeira. Cabe, inclusive, discutir possível abuso de autoridade” afirmou ele.

Faixa de Gaza

Por sua vez, o coordenador da bancada do Amazonas, no Congresso Nacional, senador Omar Aziz, criticou veementemente a operação policial ocorrida no rio Madeira.

O senador classificou a ação como pirotecnia e a comparou a cenas de guerra na Faixa de Gaza, na Palestina (Oriente Médio). Também questionou a ausência de prisões de traficantes, que seria a justificativa oficial da operação.

 “O mais engraçado de tudo é que vão lá, tocam fogo, dizem que é o narcotráfico, mas não prenderam absolutamente ninguém. Só destruíram, poluíram, prejudicaram”, disse o senador.

Aziz enfatizou ainda o impacto social da ação, argumentando que ela atingiu trabalhadores humildes da região, que utilizam as embarcações como moradia por não terem outra opção. Os municípios do Amazonas mais afetados, segundo ele, seriam Humaitá, Manicoré, Novo Aripuanã, Borba e Nova Olinda.

“Nós não aceitamos que pessoas humildes, que pessoas trabalhadoras sejam tratadas como narcotraficante”, afirmou Aziz.

Críticas à Polícia Federal

A principal cobrança do senador do Amazonas foi direcionada à Polícia Federal e ao Poder Judiciário. Ele exigiu saber qual juiz autorizou a operação e quais as provas concretas que a embasaram.

Para Aziz, se há envolvimento do narcotráfico, a obrigação das autoridades é prender os responsáveis, e não apenas destruir os equipamentos.

“Eu quero saber quem foi o traficante ou narcotraficante que foi preso nessa operação de ontem. Quem foi preso? A polícia federal e o juiz que autorizou têm obrigação de prender e mostrar nome a nome quem é que está por trás disso”, cobrou.

Festa da padroeira interrompida

A ação da Polícia Federal, em Humaitá e Manicoré, considerada truculenta, também reverberou na Câmara dos Deputados.

O decano da bancada amazonense, deputado Átila Lins (PSD-AM), foi à tribuna protestar contra a ação policial. Em sua manifestação de protesto, o parlamentar lembrou que o maior impacto ocorreu em Manicoré, onde a festa da padroeira, Nossa Senhora das Dores, foi interrompida pelas explosões.

Tais ações, segundo Lins, causaram trauma e indignação na população. Mas também houve, o que considerou “ataques”, em Humaitá.

“Manifestamos nosso veemente protesto contra tais práticas e cobramos das autoridades competentes uma postura de maior diálogo, respeito e proporcionalidade. A defesa do meio ambiente e da legalidade não pode ser usada como justificativa para a destruição indiscriminada de vidas e sonhos. Manicoré merece respeito. Sua gente merece dignidade”, discurso Átila Lins da tribuna da Câmara.

Por fim, o decano ressaltou que até mesmo a igreja católica se posicionou contra a operação da PF. E citou a nota de repúdio assinada pelo bispo da Diocese de Humaitá, dom Antônio Fontineli de Melo.

Fotos: divulgação PF