Produção de gado no Amazonas alia economia e proteção ambiental
Articulista detalha como o setor pecuário do estado integra produtividade, tradição e práticas ambientais para fortalecer a economia local
Por Fabiano Bó
Publicado em: 05/09/2025 às 10:29 | Atualizado em: 05/09/2025 às 10:29
A pecuária é uma atividade de relevância estratégica no Amazonas, especialmente na mesorregião sul. Nessa área, certos municípios concentram o protagonismo da produção agropecuária e têm um peso significativo no PIB regional.
Esse quadro evidencia a importância da cadeia bovina não apenas como fonte de renda, mas também como base para a consolidação econômica de municípios que vêm se destacando em meio aos desafios de infraestrutura e de preservação ambiental.
Segundo dados da PPM (Pesquisa da Pecuária Municipal) de 2023, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o rebanho bovino do Amazonas alcançou 2,38 milhões de cabeças, distribuídas em 2,38 milhões de hectares de pastagem, com uma taxa média de ocupação de aproximadamente uma cabeça por hectare.
Entre os municípios, Boca do Acre concentra o maior rebanho da região, seguido por Apuí, que possui o segundo maior contingente, reforçando o protagonismo desses dois líderes na produção agropecuária estadual.
Em termos de abate, o estado registrou 202 mil cabeças bovinas em 2023, o que demonstra a relevância econômica do setor e a crescente demanda por carne bovina, impulsionada pelo desenvolvimento econômico, sobretudo em cidades como Manicoré, onde a área de Santo Antônio do Matupi se destaca como importante polo pecuário, além de Lábrea e Humaitá, onde a presença de frigoríficos estruturados garante escoamento, agrega valor à produção e fortalece a competitividade do setor.
A importância histórica da pecuária na região ajuda a explicar essa concentração de rebanhos. A presença da cultura agropecuária, da tradição do pecuarista e do tropeiro remonta ao século XIX, quando a migração de gado e o transporte de tropas moldaram os primeiros centros econômicos.
O tropeiro, condutor de tropas de mulas ou cavalos, desempenhou papel fundamental nesse processo, moldando práticas de manejo e consolidando hábitos que perduram até hoje, refletidos nas festividades e na vida rural local.
Para avançar sem comprometer a floresta, surgem iniciativas que conciliam produtividade e sustentabilidade.
Em Apuí, a pecuária intensiva, apoiada por sistemas integrados e assistência técnica, vem sendo consolidada com o apoio do MDA e da Embrapa, por meio do Programa ABC+, que até 2025, articulado ao governo do Amazonas, deve ampliar práticas sustentáveis e permitir que o setor prospere em consonância com o meio ambiente.
Além disso, o Amazonas registrou em 2025 uma redução de 16% nas queimadas em comparação ao ano anterior, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Esse resultado reflete o impacto positivo das políticas de manejo sustentável e do controle ambiental na região, que incluem monitoramento, fiscalização e educação ambiental voltados a produtores rurais.
A diminuição das queimadas contribui diretamente para a preservação da floresta, protege a biodiversidade local e fortalece a imagem do Amazonas como parceiro da conservação mundial. Isso mostra que é possível conciliar desenvolvimento econômico e cuidado com o meio ambiente.
Esse movimento mostra que a pecuária no sul do Amazonas não se limita ao crescimento de rebanhos, mas representa uma transformação econômica e social em curso. Ao reunir tradição produtiva, inovação tecnológica e compromisso ambiental, o setor reposiciona a região em um cenário onde desenvolvimento e conservação caminham de forma integrada.
O desafio para os próximos anos será garantir escala e continuidade a esse processo. Sustentar famílias, fortalecer economias locais, abastecer mercados e proteger o maior patrimônio ambiental do planeta exigem visão estratégica e planejamento de longo prazo.
Se esse equilíbrio se consolidar, o sul do Amazonas não apenas se destacará na pecuária, mas também será exemplo nacional de como produzir com responsabilidade ambiental. Nesse contexto, a tradição da pecuária pode se transformar em vantagem sustentável para as próximas décadas.
*O autor é coronel da Polícia Militar, especialista em Política e Estratégia (Adesg) e secretário-chefe da Casa Militar do Amazonas.
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Foto: Arquivo/Agência Brasil
