A condição humana
Publicado em: 27/03/2014 às 00:00 | Atualizado em: 27/03/2014 às 00:00
Ivânia Vieira*
Segunda-feira. As notícias se espalham em tamanhos e cores diferentes nas múltiplas plataformas: 529 pessoas foram condenadas à morte no Egito. São apresentadas como dissidentes dos atuais donos do poder naquele país, simpatizantes da Irmandade Mulçumana e do ex-presidente Mohammed Mursi. Em seguida, mais um dado: outras 700 pessoas deverão ser condenadas à morte nas próximas horas.
Da primavera árabe à volta da opressão de longa duração, em pouco tempo, o Egito é agora uma das interrogações da humanidade. O confronto de lá tem um pé na maioria dos países/regiões do mundo. O dado comum é a banalização da vida. Um espetáculo macabro produzido pelas inteligências e pelos poderes de um mundo orgulhoso demais das invenções de uns poucos humanos.
Hannan Arendt, em A Condição Humana (tradução de Roberto Raposo para a 10ª edição feita pela Forense Universitária, em 2007), escreveu há pouco mais de 50 anos não haver dúvida da nossa atual capacidade de destruir toda a vida orgânica da Terra. E alertou: “Esta é uma questão política de primeira grandeza, não deve ser decidida por cientistas profissionais nem por políticos profissionais”.
Outras notícias do Egito apontam para 16 mil dissidentes políticos presos. A maioria deles é de jovens. Nas outras partes do mundo, os indicadores dos últimos anos apontam 5,8 mil pessoas condenadas à morte (muitas já mortas) como processo “legítimo e legal” do ato de Justiça. Matar em número diluído, fragmentar as mortes tem sido um recurso hábil para frear condenações e protestos internacionais contra determinados governos.
“(…) Se realmente for comprovado esse divórcio definitivo entre o conhecimento (no sentido moderno de know-how) e o pensamento, então passaremos à condição de escravos”, disse Arendt ao fazer, em 1958, uma proposta de reflexão – O que estamos fazendo? A pergunta continua valendo hoje. A atividade de pensar ainda é possível e não pode ser entendida como tarefa de um punhado de iluminados “isolados” da miséria do mundo. É difícil pensar. Nas tiranias é muito mais fácil agir. Arendt conclama a outro protagonismo humano, a outra aliança dos povos em sinal de compreensão das dores da humanidade e de posição para que estas não sejam mercantilizadas. Nos negócios feitos com as dores da humanidades, algumas custarão mais alto e exigirão Justiça; outras serão ignoradas na contabilidade da bolsa que precifica o mundo.
*A autora é jornalista e professora no Curso de Comunicação Social da Ufam.
