Espalhadores de sal na Terra
Publicado em: 31/05/2015 às 00:00 | Atualizado em: 31/05/2015 às 00:00
Ivânia Vieira
Se há, como afirmam estudiosos da área, co-responsabilidade dos movimentos sociais no marasmo vivido no Brasil, é possível perceber uma outra movimentação provavelmente resultante ou revigoradas a partir das eleições de 2014. A série de protestos e o cenário fértil apresentou ao País caras novas e reapresentou algumas caras velhas (essas com farta base para esconder o que efetivamente são), e discursos de tantas matizes.
Assim redesenhou-se a democracia. Cabe nela o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) e o seu grito pela “dignidade” no País, com direito a aplausos de um séquito. Cabe também exercitar a memória. Eis um exercício difícil e profundamente interessante. A ideia aqui não é falar de Caiado (quem se interessar o Google ajuda na busca da trajetória desse político), e sim tratar da re-aparição dos movimentos como um sal da Terra. São vários, talvez muitos, não massa, e sim reunindo afinidades e vontade de fazer acontecer. Os políticos deveriam prestar mais atenção e aprender com eles.
Em São Paulo, o Énois Inteligência Jovem está na rua de asfalto e nas infovias. São adolescentes e jovens realizando um trabalho dinâmico a respeito da violência contra as mulheres e a desigualdade de gênero. Entre outras ações, fazem algo simples e de repercussão larga: vídeos com meninas de vários lugares do Brasil onde elas próprias falam sobre o que é a violência e como essa violência está dentro de casa. Ações mobilizadas por grafiteiros, dançarinos e músicos e outras tantas iniciativas, nesse campo, estão ajudando a colocar a pauta da violência contra a mulher em outros enfoques, forjando estratégias e ampliando a solidariedade.
Em Manaus, o Mobilidade Urbana está entre as promissoras iniciativas. O grupo reúne profissionais, estudantes, pesquisadores, parlamentares determinados a colocar no trombone o tema “mobilidade” na cidade de Manaus. Desde o ano passado vem incomodando, tirando do lugar os sossegados e ampliando espaços de debates em torno desse assunto. A relevância do pensar sobre mobilidade em Manaus é sentida todos os momentos do dia. A turma da mobilidade organiza, nesse momento, um encontro sobre Mídia e Mobilidade, sintonizada com um dos aspectos importantes no trato dessa questão, a comunicação. “Queremos dialogar com o pessoal da área, saber como veem a mobilidade e trocar ideias para avançarmos nesse item e, para nós, a mídia é valiosíssima”, afirma o professor-pesquisador Geraldo Alves, do Departamento de Geografia, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
O Mobilidade está conseguindo aproximar outras forças tecendo uma rede de convergência de interesses, proporcionando olhares mais críticos e aguçados sobre decisões que foram e estão sendo tomadas por gestores públicos no âmbito urbano com repercussões enormes no cotidiano dos moradores da cidade. Faz abrir um guarda-chuva no qual cada haste converge para um ponto central – a violência. Não ter calçada para se andar, não ter pontos de ônibus adequados, nem ônibus, iluminação pública adequada, mais parques, praças e jardins; não se respeitar os espaços para pessoas com algum grau de dificuldade poderem se movimentar na cidade, nem os estacionamentos a elas destinados são algumas das questões que brutalizam o lugar onde vivemos. Que esses grupos desconstruam poderes perversos e ajudem a socializar espaço e bens públicos ressignificando o ser cidade.
