Uma oferta para eu parar de escrever
Publicado em: 07/05/2011 às 00:00 | Atualizado em: 07/05/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
Queridos amigos deste encontro de todos os sábados, há alguns dias recebi uma oferta de trabalho que me fez balançar. É um convite raro, daqueles que deixam a gente atravessar a noite observando o ponteiro do relógio circular e circular e circular.
Na noite em que fui abordado sobre o assunto, não me dei conta da oportunidade, mas, nos dias seguintes, voltei a pensar seriamente, até porque nunca havia percebido em mim a habilidade que o autor da proposta percebeu num pequeno gesto.
E foi justamente ali que ele me descobriu. E me descobriu dentro da filosofia que uso para identificar, em pequenos gestos, grandes talentos. Minha máxima é: “O bom jogador de futebol não se descobre em 90 minutos de jogo. Basta um toque na bola”.
E lá estava eu deixando aquele homem impressionado com a habilidade que é da atividade dele. Justo num raro momento em que peço para ajudá-lo e sou convidado para tornar-me sócio de seu empreendimento.
Sabe, depois que passei a pensar no convite, enchi-me de vaidades e modéstias para admitir que tudo o que fiz até hoje o fiz com grande competência. Lembro-me, por exemplo, quando trabalhei como plantador de capim da fazenda do já falecido João Pessoa. Eu tinha sete anos de idade, mas não queria trabalho de criança: só servir água para os adultos. Não, eu queria era carregar fardos de capim.
Nasci carpinteiro e me criei numa movelaria e, ainda hoje, apesar de atuar como passageiro-repórter, construo meus próprios móveis.
Comandante de barco, feirante, vendedor de livro, militar, radialista, assessor de imprensa, filósofo… Tudo isso fiz. Mas, imaginar-me ali, em uma nova atividade, nunca mesmo havia passado pela minha cabeça. Parecia estar revivendo o momento que me fez redescobrir o caminho do jornal, em 2001, quando o amigo Wilson Nogueira me provocou: “Você não se conhece”.
O desafio, senhoras e senhores, amigos do busão, perturbou-me depois que aproveitei uma folga para repetir o que sempre fiz desde que cheguei a Manaus, em maio de 1999: pegar o busão e ir à Feira da Panair comprar peixe.
Gosto da Panair por causa da diversidade, qualidade e do preço do peixe que se vende ali. E, naquele início de noite, o jaraqui estava perfeito: com todas as escamas em seus lugares e com os olhos brilhando. E o pacu nem se fala. Estava na baba.
Diria: foi paixão à primeira vista. Era como se eles estivessem me chamando. E eu os imaginando frito, assado, no caldo branco, com maxixe e jerimum, com baião de dois. Enfim, preparando de todo jeito, para chamar a parentada.
Depois desse encontro, calculei a capacidade de estocagem de casa e fechei o negócio: comprei cinquenta jaraquis e cinquenta pacus. Quando entreguei o dinheiro ao feirante, eis que chega um cidadão e diz: “Pode deixar que eu trato para o senhor”. E eu, prontamente, assenti.
Acontece, amigas e amigos, assim que ele levou a centena de peixe para a banca e começou a escamá-los, percebi que tão cedo eu não sairia dali e ofereci-me para ajudá-lo. Num primeiro momento, ele recusou, mas depois puxou debaixo de sua banca uma faca e um afiador e entregou-me.
Tão logo acabei de ticar o primeiro (na minha terra, chama-se retalhar o peixe), o tratador profissional pegou o jaraqui e, admirado de minha competência, disse:
– Égua! Tu trata muito bem e muito rápido!
Formando dupla com ele, em menos de meia hora, acabamos o serviço e, quando eu já estava pegando uma caminhonete para levar o peixe para casa, o tratador me chamou e, olhando nos meus olhos, propôs-me uma sociedade:
– Olha, nós dois aqui vamos ganhar dinheiro. Você não precisa entrar com nada. Eu já tenho a banca. A cada dúzia de peixe que a gente tratar dá para tirar até dez reais. Pense aí!
Até hoje estou pensando na oferta.
*Filósofo e escritor.
