Uma noite no pronto-socorro

Publicado em: 03/12/2011 às 00:00 | Atualizado em: 03/12/2011 às 00:00

 

Neuton Corrêa*

Embarquei no 439 ainda lembrando as cenas que presenciei nas seis horas em que estive na porta da emergência do Hospital Pronto-Socorro João Lúcio, no sábado que passou. Fui ali à espera de notícia de minha cunhada que fora levada para lá após queda de moto.

Daquelas cenas, uma se repetia incessantemente em minha cabeça, a de um garoto que desembarcou de uma ambulância, entubado, com cilindro de oxigênio ao lado dele e, entre as pernas, um depósito de plástico cheio de sangue que se interligava ao corpo por um dreno que saía debaixo de um curativo à altura do peito esquerdo.

A imagem daquele moleque poderia se tornar comum entre tantas cenas semelhantes que se sucederiam no local numa frequência não superior a vinte minutos entre um desembarque e outro de vítimas de crimes e acidentes, mas a curiosidade dele em erguer a cabeça e atirar em minha direção um olhar suplicante o fez diferente em meio a tantos desesperos.

Hoje, intrigado estou, pois minha memória, impetuosamente seletiva, não se ocupou com o caso da moça que deu entrada ali com os braços jorrando sangue do profundo golpe que recebera do padrasto. E ainda dá pouca importância ao rapaz que chegou desesperado pedindo socorro para uma mulher que havia machucado as pernas em uma queda. Aliás, ele mesmo, depois de chegar naquele portão deve ter se convencido que era apenas mais um e que, se comparasse os dramas da noite, o da amiga dele seria o menor.

Mais intrigante ainda, para mim, agora, é que minhas lembranças insistem em pedir que eu não fale do homem que deu entrada com um tiro na cabeça. Mas pede que eu conte as histórias do maqueiro que, enquanto aguardava os pacientes das ambulâncias, contava casos de pessoas importantes na sociedade que passaram pelas mãos dele:

“Um dia eu estava aqui e aí desembarcou um cara que eu tinha conhecido há muito tempo. Quando olhei, eu gritei:

– Tenente!!!

E ele respondeu:

– Tenente uma porra, agora eu sou coronel! – fez-se um silêncio e o maqueiro retornou a fala do oficial – Mas do que adianta? Olha como eu estou aqui!”

Um cidadão fez um comentário e ele continuou suas histórias:

“Porrada (assim mesmo) foi um desembargador!

O cara chegou ali e, quando eu toquei nele, um camarada gritou: ‘Olha, ele é desembargador’. Eu fiquei muito puto. Porra, aqui, na maca, ninguém tem diferença”.

Depois disso, ele acabou de contar o caso.

“Não deu dez minutos aí a médica chamou o cara que tinha me falado do desembargador e perguntou:

– O senhor é o acompanhante do (e deu o nome)?

– Sim.

– Ele tinha plano de saúde?

– Tinha. Ele é desembargador.

Aí a médica disse pra ele:

– Era! O desembargador acabou de morrer”.

O maqueiro puxou outro fato, mas logo em seguida um dos seguranças do hospital se aproxima das dezenas de pessoas que estavam à espera de notícia e anuncia, lendo um papel: “acompanhante do fulano de tal (não entendi o nome)”.

Nessa hora, acompanhada do segurança, uma mulher entra para uma sala e, em menos de dez segundos, ouço um grito e, ao meu lado, vejo um cidadão bater os pés no chão e socar desesperadamente a parede do pronto-socorro, gritando:

“Ai, meu Deus! Ai, Deus! Ele era meu único filho!”

Hoje, o corre-corre da porta do hospital, o olhar do menino e os gritos do pai dele ainda ressoam em meus ouvidos.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).

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