Sobre feiras e mercados
Publicado em: 27/11/2012 às 00:00 | Atualizado em: 27/11/2012 às 00:00
Wilson Nogueira*
Feiras e mercados públicos deveriam ser partes dos lugares mais aprazíveis das cidades. Mas, em Manaus, infelizmente, são a expressão do abandono. Mesmo assim, resistem como espaços de profunda convivência social, por onde circulam os alimentos, as raízes, os temperos, os aromas, as conversas e os causos que nutrem o corpo e a alma.
Não desconheço o esforço de cada feirante de zelar por seu espaço e mantê-lo o mais higiênico possível. Muitos agem assim, até porque precisam cativar clientes. Refiro-me ao fato de que inexiste, ao menos na prática, política pública voltada para a valorização da convivência sociocultural nesses logradouros. Cada vez mais permanecemos menos tempo nos mercados e feiras, ainda que essas visitas nos deem a satisfação do contato com personagens e situações típicas de determinados “pedaços” urbanos.
O retrato desse problema é a Feira da Manaus Moderna, localizada no centro histórico, na margem do rio Negro. Trata-se de um galpão tosco, sem iluminação e ventilação adequadas, onde centenas de comerciantes se espremem em cubículos. O público e o abastecimento de mercadoria transitam pelos mesmos corredores apertados. Não é um lugar recomendado para quem sofre de claustrofobia. A atual arquitetura ali praticada não leva em consideração uma convivência humana sadia e prazerosa. Longe disso: sugere a improvisação grosseira e o desrespeito com quem mora em Manaus ou a visita.
O entorno da Manaus Moderna é outro exemplo de descaso do Poder Público. Há acúmulo de lixo, criadouros de ratos, baratas e moscas e um insuportável cheiro de chorume, sinal de que os resíduos produzidos pelos comerciantes chegam a apodrecer ali mesmo. O chorume decorre de material orgânico em decomposição. Esses e outros fatos correlatos indicam que as feiras e mercados precisam ser tratados, também, como permanente caso de saúde pública preventiva. Através desses estabelecimentos, afinal, circulam os alimentos que abastecem as cozinhas que alimentam a população.
Menciono, de igual modo, que o acesso às feiras e mercados tradicionais – ou aqueles que funcionam como centros de abastecimento e, por isso, vendem produtos mais baratos – está cada vez mais difícil. Faltam estacionamentos públicos e as vagas permitidas nas ruas são disputadas a tapas. Também não há linhas de ônibus que atendam a esse segmento comercial. Sabe-se que compras de feiras não são bem recebidas em ônibus das linhas comuns, principalmente peixes e carnes. Por tudo isso, os frequentadores de feiras podem se considerar sobreviventes de uma tradição que remete ao surgimento das cidades.
A tendência é a de que as novas gerações se habituem mais à impessoalidade e a sisudez dos feirões dos hipermercados, mesmo que tenham que pagar mais caro pelo conforto, pela segurança e pela higienização. São lugares realmente funcionais, mas que padecem da ausência da convivência humana primordial, marcada pelo diálogo, pela amizade e pela solidariedade.
Nos hipermercados as transações são realizadas por meios de códigos de barra e caixas autômatos; a palavra do cliente não vale nada: quem autoriza o fiado é seu avalista, a empresa que está por trás do seu cartão de crédito; não há espaço para o menor gesto de afetividade entre o vendedor e o consumidor. Não há como pechinchar preços. O computador não autoriza descontos.
Imagino que é esse tipo de relação modernosa que pensam os gestores que querem a privatização dos mercados e feiras. Em vez de solucionar o problema querem se livrar dele a qualquer custo – para a população, é claro. Serviços públicos privatizados não garantem melhoria de atendimento aos seus usuários. Que o diga a transferência do Porto de Manaus para o setor privado. A mudança mais significativa nesse logradouro foi a do aumento nos preços das taxas de usos e serviços.
Por isso, o certo mesmo é que a sociedade exija que a Prefeitura assuma a reforma e a manutenção das feiras e mercados de Manaus como áreas de convivência social pública. Afinal, os feirantes, seus clientes e visitantes eventuais, como os turistas, necessitam de espaços higienizados, confortáveis e seguros, para negociar, conversar ou simplesmente se admirar da diversidade gestos, sons, cheiros e cores que permeiam esses lugares tão antigos e modernos ao mesmo tempo.
- O autor é jornalista
