Sexo, livros e jornalismo

Publicado em: 24/04/2009 às 00:00 | Atualizado em: 24/04/2009 às 00:00

Gerson Severo Dantas*

Certa vez li uma crônica de Carlos Heitor Cony (foto) sobre um amigo dele que defendia a esdrúxula tese de que havia 10 ou 11 coisas melhores que sexo. Assunto instigante e conduzido com maestria pelo inefável e sempiterno escritor de Pessach e Tijolo de Segurança, além de grande jornalista.

Opondo-se, Carlos Heitor Cony foi eliminando as possíveis coisas melhores que sexo apostas pelo interlocutor amigo. Dinheiro, por exemplo, dá muito prazer, mas todos o buscam para comprar coisas que facilitem a conquista e o sexo com as maiores e melhores parceiras. Comer, também é bom, mas muitos são pegos pela barriga para depois fazer sexo. Ao fim e ao cabo, dizia o cronista, era impossível para ele pensar em algo melhor ou que não tenha como fim último comer – agora no sentido sexista – alguém por vias não-orais.

No entanto, para arrematar, pondera que se há algo melhor do que sexo, esse algo é a “possibilidade de fazer sexo”. É uma deferência àquele momento que antecede o beijo, o segundo anterior a penetração ou a tirada de roupa, enfim coisas desse tipo.

Trato desse assunto aqui a propósito de um tema que a cada dia mais me parece coisa do passado: Ler. Pouca coisa, apenas sexo e uma picanha selada feita pelo Grill Designer, me dão mais prazer que ler um bom livro. De preferência, fazendo uma analogia invertida a conclusão de Cony na crônica em tela, reler um livro para redescobrir significados, redefinir posições, abrir nova vereda de entendimento, enfim curtir e recurtir uma história. É de tal forma assim que já condenei, absolvi e voltei a condenar Capitu pelo adultério perpetrado contra Bentinho, no clássico “Dom Casmurro” de Machado de Assis.

Livro algum, contudo, me deu tantas e tamanhas significações diferentes quanto “Quase Memória”, do supracitado Carlos Heitor Cony. É, como define Jânio de Freitas na orelha, “um livro delicioso”, mas que nos deixa na dúvida se é, na realidade, “a quase-biografia de Cony-Pai ou a quase-autobiografia de Cony-Filho”. No que me diz respeito, a releitura de Quase Memória me oferece novos significados à medida em que avanço no tempo e na profissão de jornalista.

Ambos os Cony são jornalistas e misturam nas tramas do livro o mister deles, vividos desde os anos 30 até meados dos anos 90, quando o romance fez a reestréia de Cony-Filho no gênero, com as relações paterno-infantis, quando em choque estão, de alguma forma, pai e filho. Sobretudo para quem tem filho, a relação de ambos é inspiradora, até já pensei em adotar com meu próprio filho as técnicas usadas por Cony-Pai.

Do ponto de vista profissional, há várias lições em jogo e a principal delas é saber que o momento de ir embora chegará e quem melhor fará a “Pessach” será aquele que tiver planos B, C e D. Quem se aferra por demais nas centenas de paixões geradas pelo tempo sempre quente do jornalismo diário certamente terá problemas, como o enfrentado por um amigo dos Conys e cuja história final, no penúltimo capítulo, leva qualquer um às lágrimas.

Reli Quase Memória ontem à noite e ao final me lembrei de outro ícone das letras brasileiras: João Cabral de Melo Neto. Lá pelos anos finais de sua vida severina, o poeta pernambucano, já acometido de uma cegueira “borgiana”, concedeu uma entrevista na qual ao ser perguntado o que havia lido ultimamente respondeu de chofre: “Os clássicos”. Argumentava o poeta que a vista falhava e restava-lhe pouco tempo de vida, daí que não poderia perder tempo lendo livros que não conhecia e que poderiam render-lhe decepções, usurpando, com isso, o prazer de uma boa releitura de um clássico.
Estou quase concordando com todos, sobretudo porque ler é a melhor coisa da vida.

Ops!!! Depois de sexo e picanha.

*Filósofo e jornalista.

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