Saudade de ti, Ropoca
Publicado em: 18/05/2015 às 00:00 | Atualizado em: 18/05/2015 às 00:00
Neuton Corrêa
O temporal havia passado, mas o que ele deixara só seria o começo da nossa brincadeira no Ropoca: barrancos e toras de madeira à deriva. As bolotas de capim viravam ambiente perfeito para uma manja pega e troncos de árvores, canoas sem quilhas que nos levavam de algum lugar para lugar algum.
A lagoa era a última parte da brincadeira que começou assim que a chuva atingiu a ilha. Erámos um grupo de mais ou menos uma dúzia de curumins. O mais velho talvez tivesse uns doze anos de idade. Naquele ano, eu completaria dez, já que eu estava na terceira série.
O temporal chegou numa hora perfeita para mim, depois do almoço. Meus pais já estavam na cesta e a chuva só faria eles esticarem o descanso do meio-dia. Eles sabiam que dia de chuva era futebol na certa no meio da rua.
Era exatamente isso que acontecia. Chuva e futebol. Perfeito! Perfeito até alguém ter a ideia de ir ao Ropoca. Afinal, já estávamos molhados e aparecer em casa com cabelo ressecado e de calção molhado eram somente consequência da bola no temporal.
Mas não foi tão perfeito assim. Tudo mudou quando a turma embarcou numa dessas toras à deriva. No começo, a brincadeira era apenas tentar se equilibrar sobre ela. Depois, remar para o outro lado daquele braço do lago do Macurani.
Já havíamos dominado a embarcação até que o vento voltou a soprar e perdemos o controle sobre a nossa canoa. Ainda tentamos domá-la, mas não conseguimos. Não perdemos tempo. Abandonamos o barco e decidimos dizer “braços pra que te quero”, nadando até o castanhal.
Foi uma diversão e tanto. O problema é que a hora se foi, a tarde se foi. Então, engrossei o coro e voltei pra casa ciente que seria recebido por uma ripa de cedro que o papai tirava das portas que a gente fabricava na movelaria do fundo do quintal.
Doeu, mas valeu.
Domingo, ao ver essa garotada despreocupada exatamente ali onde a gente brincava há mais de trinta anos, lembrei de minha infância.

