Roberto
Publicado em: 13/08/2009 às 00:00 | Atualizado em: 13/08/2009 às 00:00
Lúcia Carla Gama*
A notícia chegou cortando o ar gelado desta São Paulo imortalizada como Sampa por Caetano Veloso: mataram o Roberto, filho do Gaudêncio! Como assim!? É isso mesmo, ele levou uns tiros ao reagir a um assalto na lan house e morreu. A respiração parou, o coração disparou e a mente seguiu para junto dos pais daquele filho único, jovem de 30 anos.
Lembro do Roberto pequeno ainda, correndo na rua em frente à casa da avó que era vizinha da minha avó, lá pelo que já foi um dia o Boulevard Amazonas. O nome foi dado pelo pai, Gaudêncio, vascaíno fanático, que resolveu homenagear um dos grandes ídolos da torcida alvinegra.
Não era dos piores meninos em danação, mas dava o que falar quando estava na área. Enquanto os pais, Gaudêncio e Raimunda, conversavam na calçada em frente à casa da vó Maria, num hábito cada dia mais incomum, Roberto corria de um lado pra outro da rua com meus primos pequenos. E eles faziam o barulho devido, chamando atenção dos adultos que os recomendavam cuidado com os carros.
Nos Natais também era comum o encontro. Gaudêncio, Raimunda e Roberto iam sempre ao Boulevard desejar boas festas, saúde e sucesso. E, assim, fui vendo Roberto crescer até perder de vez o contato, quando as vidas foram tomando rumos diferentes e minha avó, por questão de saúde, teve que deixar a casa de sobrado do Boulevard. As notícias sobre a vizinhança de então são dadas por telefone ou em encontros festivos em comemoração a mais um ano de vida.
Até que mais recentemente minha tia e primos passaram a ter maior convivência com Gaudêncio e Raimunda por conta da compra de uma drogaria. Era o casal se desfazendo do bem que lhes garantiu o sustento para chegar à aposentadoria. Não, Roberto não queria tocar aquele negócio. Tinha o seu próprio, que num primeiro momento não recebia o apoio dos pais. Então, a drogaria foi vendida e uma turma jovem está levando adiante um ponto com mais de 20 anos de tradição.
Num dia qualquer, de passagem pela drogaria, vendo computadores sobre os balcões, Roberto comentou que finalmente a modernidade estava chegando ali, pois na época do seu pai era tudo controlado manualmente. Eram os bons ventos soprando. Os mesmos bons ventos que faziam a lan house crescer, que desfizeram a sociedade de Roberto com um outro rapaz e garantiram o apoio dos pais àquele negócio escolhido por ele.
Estava tudo certo: jovem, boa gente, negócio em alta, o cavaquinho, companheiro de rodas de música, cada vez mais dominado, os pais aposentados e apoiando a iniciativa, até que os assaltantes armados entraram na lan house. Forte, Roberto achou que se garantia e reagiu. Defendia seu patrimônio. Acabou pagando com a vida.
E todos nós ficamos assim, mudos, embasbacados, mãos amarradas, corações pequeninos, temerosos, totalmente paralisados.
* A autora é jornalista.
