O perdão e a farinha

Publicado em: 27/07/2009 às 00:00 | Atualizado em: 27/07/2009 às 00:00

Neuton Corrêa*

A bombonzeira consegue associar o perdão à farinha. Isso me fez lembrar do amigo Wilson, que sempre diz: “Tem gente para tudo neste mundo e ainda sobra um para brincar debaixo do boi”. A vendedora de bombons, por exemplo, acha que quem come farinha, como a gente, não pode perdoar.

Essa conversa religiosa ocorreu há poucos dias, em um ponto de ônibus da rua Pará, na luxuosa área do Vieiralves. Nesse dia, atrevi-me, ali, a esperar o 122. É a única linha que passa por lá. Talvez por causa desse monopólio, passa a hora que bem entende. Mas eu não estava com pressa e resolvi enfrentar a espera.

Vi a vendedora de longe. Ela estava sentada ao lado de uma barraquinha metálica, montada ao lado da parada de ônibus. Cruzava as pernas, sobre as quais descansava um livro grosso. Parecia tão concentrada na leitura que ao vergar a coluna e baixar a cabeça em direção às letras seu corpo formava um “C”.

Assim que me aproximei, ela me perguntou: “O senhor acha que quem come farinha pode perdoar?”. Sem entender a questão, apenas sorri. Afinal, não consegui ligar uma coisa à outra. Para mim, farinha tem sentido de peixe. Essas duas coisas, sim, peixe e farinha, aqui na Amazônia, não se separam.

Lembro quando cheguei por aqui, pela capital, o dito Wilson ria das montanhas que fazia no meu prato. E, eu, comigo, resistia: “Isso é porque ele não conhece meu compadre Juveco”. Esse é um grande comedor de farinha. Um pedaço de peixe para ele significa meio litro da fofa.

Nunca notei, porém, que o Juveco fosse piedoso ou impiedoso por causa disso. Na verdade, a farinha o fazia mais engraçado. Tanto que virou humorista. E dos bons.

A pergunta da bombonzeira induzia à certeza de que o comedor de farinha não perdoa. Para tentar compreendê-la, cheguei ainda mais perto. Percebi que o livro que segurava em suas coxas reunia vários cantos de igreja. Ela revirava as folhas para frente e para trás e corria o olhar sobre as letras com a ponta de um lápis.

Peguei três caixinhas de Chiclets e lhe dei R$ 1. Antes que levantasse de seu banquinho para passar o troco, resolvi perguntar-lhe:

-Por que a senhora acha que quem come farinha não pode dar o perdão?
E ela começou:
– Meu pai conhecia a Palavra. Eu me criei com ele e desde pequena, graças a Deus, nesses meus 60 anos, sou temente a Deus.

Continuei sem entender a ligação do perdão com a farinha e ela continuou:
– Olha, tem muita gente por aí que toma o Santo Nome em vão.
– Sim, respondi. E ela:
– Isso é o Mandamento.
– É verdade, disse-lhe, e o Segundo Mandamento.
E finalmente ela falou:
– Pois é, eu fui na igreja esses dias e falei dos meus pecados para o pastor. Ele disse que iria me libertar. Eu fiquei alegre, mas depois ele olhou para mim e disse: “A senhora só vai ter que me pagar”.

– O que o senhor acha? Um comedor de farinha desses tem condições de tirar meus pecados? Claro que não, respondeu a bombonzeira.

Rindo, concordei com ela.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Ilustração: Homahs

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