O lugar daqui
Publicado em: 19/01/2014 às 00:00 | Atualizado em: 19/01/2014 às 00:00
O que sobra para colorir nossa existência? Significar o acordar e seguir em frente. As ruas do lugar onde moro há muito são outra coisa, por onde a água estragada escorre e o lixo das casas bonitas ficam espalhados do lado de fora como banquete de cachorros, ratos, gatos e urubus. Os portões da cidade têm passagem larga para o alheiamento do destino dela e estreita à cidadania ativa.
“Na contemporaneidade, espaço público e privado estão interceptados o tempo todo”, diz Canton ao trabalhar o esgotamento da ideia de privacidade em um mundo em permanente espionagem consentida. É essa agonia presente, onde público e privado aparecem com outra feiç ão, que autoriza os “mais espertos” a engolirem a calçada por onde tento andar; a impor estacionamento de veículos nos locais destinados a outras vivências; à usurpação das áreas verdes para abrigar os empreendimentos da ávida “modernidade” para a qual logo dizemos sim, aceitamos o saque em nome dela! Afinal, somos modernos. Temos igarapés poluídos.
Canton faz a viagem acompanhada de ricos pensadores, conversa com intervencionistas das cidades a partir de uma experimentação paulistana para dizer que “no decorrer do século 20, emque a cidade de São Paulo emerge como amrco da era moderna, assistiu-se, ao mesmo temp, à dissipação da crença de que a arte e a criação são transcendentais, libertadoras, sintéticas, algo maior que a vida (…) estabeleceu-se em um não lugar, testemunhando condições de existência que na verdade são não vidas. Intoxicou-se”.
E Manaus sabe do tamanho da intoxicação a que é submetida? Tem uma caminhada a ser feita para além da praia revitalizada.
*jornalista e professora da Ufam
