O homem-Onça

Publicado em: 19/05/2012 às 00:00 | Atualizado em: 19/05/2012 às 00:00

Neuton Corrêa*

O homem sentado no cantinho do busão me fez lembrar do Maneco, o Homem-Onça. Talvez a lembrança fosse porque o passageiro estava exatamente do mesmo jeito que o Maneco estava a última vez que o vi na cabeceira do rio Uaicurapá, zona rural de Parintins. Esse passageiro vestia bermuda, camisa desbotada do Flamengo e grudava ao ouvido a um rádio de pilha.

Assim estava o Maneco quando fui apresentado a ele em abril do ano passado. Para ser mais preciso: às três da tarde do dia 30 de abril, um sábado. Era festa de padroeiro na comunidade, mas, mesmo com a movimentação do povo, o Maneco mantinha-se imóvel e distraidamente sorridente ouvindo a narração de uma transmissão esportiva.

Eu estava só de passada por ali, mas, tão logo desembarquei da voadeira, meu amigo Juliano, que me convidara para a viagem, interrompeu o rumo em que caminhávamos e, puxando-me para o sentido contrário, disse: “Vem cá que eu vou te apresentar o homem que lutou com a onça”. O Juliano falou isso perto do Maneco, a quem pediu o testemunho:

– Não é verdade, Maneco, que você é caçador de onça?

E o Maneco, desgrudando o rádio da cabeça, respondeu meio assoviado por causa da dentadura que quase caía de sua boca.

– É verdade!

E o Manoel Rodrigues, este é o nome do Maneco, um sujeito de mais ou menos 60 anos de idade, moreno e rústico, de braços que não abriram espaço para nenhum pedacinho de gordura, começou, calmamente, como o lugar onde mora, a contar suas caçadas aos felinos.

A primeira e a mais marcante delas aconteceu quando ele ainda estava com 27 anos. Maneco se recorda bem da idade, porque naquele ano havia se casado. A caça era para festa do padroeiro. Cinco homens saíram para o mato. Estavam armados de espingardas e acompanhados de cães caçadores.

À certa altura da caça, o cachorro que lhe acompanhava acuou e passou a seguir uma presa. Era um veado. Quando percebeu que se tratava de um animal de grande porte, no ímpeto de sua juventude, resolveu acompanhar o cão até que o veado ficasse acuado em meio a uma galhada de uma enorme árvore caída na floresta.

Observando a galhada a distância e ouvindo o cachorro latir, Maneco gritava para que o cão continuasse cercando a presa. Mas, ao chegar perto da árvore caída, o caçador ouviu um latido desesperado e, após o desespero, o silêncio do animal.

Maneco não teve dúvida. “Era uma onça”, asseverou. Mas não pense que se intimidou. Não! Ele municiou a espingarda e rondou a galhada à procura da onça. O problema foi que a onça o surpreendeu antes e, assustado, Maneco fez um disparo que apenas raspou o couro da onça, deixando o animal ainda mais furioso.

– Ela veio pra cima de mim. Aí nós começamos a brigar: brigamos, brigamos, brigamos até eu e ela se cansar.

– Como? Perguntei, tentando entender. E ele:

– Minha preocupação era segurar a pata do bicho. Eu sabia que, se ela tocasse a pata em mim, não tinha jeito. E usei a arma pra me defender.

E continuou:

– Teve uma hora que ela veio pra cima de mim e, pra me defender, coloquei o cano da espingarda na barriga dela e ela voltou. Ficamos mais uma hora brigando, até ela me respeitar. E ela me respeitou!

– E aí, pergunto ao Maneco se ele ainda continuou saindo pra caçar e ele respondeu:

– Tenho evitado, parente, porque toda vez que saio à noite pra caçar morre um cachorro e amanheço sem saber onde estou.

Lembrando do Maneco, nem vi o que aconteceu com o flamenguista do busão.

*Filósofo e escritor.

Tags