O discurso do árabe
Publicado em: 30/08/2008 às 00:00 | Atualizado em: 30/08/2008 às 00:00
O homem estava indignado, não escondia esse estado. Ele é um dos meus companheiros de viagem no 439 (Zona Norte-Centro), por volta da meia-noite. Nesse horário, apesar da demora dos ônibus, a viagem é boa: pouca gente, alguns cochilando, outros dormindo mesmo. Há ainda os que preferem observar a atividade dos meninos e meninas que estendem os braços para os carros que passam pela Avenida André Araújo e pela Alameda Cosme Ferreira.
O cidadão embarcou na parada do Inpa. Tinha cabelos grisalhos, barriga cervejada e baixote. Era um pouco mais baixo do que eu. Um nordestino. Tive certeza disso assim que ele começou a falar com sotaque de paraibano. Estava falante! O bafo dele denunciava alguns goles de bebida alcoólica.
Tão logo entrou, cumprimentou o motorista e quando alcançou o cobrador já estava falando sobre as obras do viaduto do Coroado: “Este viaduto está demorando muito e não vai resolver o problema. Só serve para eles. Político é todo igual. Este ano não vou votar em ninguém”.
A senhorita que sentava à minha frente e que também observava o paraibano virou-se em direção dele, ficando quase de frente para mim, e falou em tom de provocação:
– Vote no árabe!
Antes que o passageiro respondesse, percebi que a intenção da moça não era a política, mas dizer-lhe que ela também era uma nordestina. Tratava-se de uma pessoa muito simpática. Sorria o tempo todo, mostrando seus dentes pequenos coladinhos uns aos outros. A cada sorriso, ela fechava os olhos, suavemente, expondo linhas do tempo no canto dos olhos. A moça também falava com sotaque típico do interior do Nordeste.
Notei que ele rapidamente mudou de humor, pois deu uma resposta gritada:
– Nesse é que eu não voto!
Com uma expressão desconcertada, mas com sorriso, a jovem pergunta:
– Mas, por quê?
E ele explica:
– Quando ele era vice-prefeito, eu ganhei, com a ajuda da mãe dele, uma placa para trabalhar na praça. Graças a isso só dependo de mim, ganho meu dinheiro e…
Antes de concluir o raciocínio, a passageira insiste:
– Mas, se ele te ajudou, por que não votar no árabe? Pelo menos o senhor mostraria sua gratidão.
– Olha, eu vou na casa da mãe dele dizer que não vou votar nele.
– Mas por quê?
Ele, então, tira o olho da mulher, fixa-o em outra direção, baixa um pouco o tom da voz e diz:
– O que ele fez com aquelas crianças no começo da propaganda política foi uma humilhação. Isso não se faz com ninguém!
A mulher agora já não pedia voto. Queria saber, assim como eu, por que aquele eleitor estava tão irado.
– Mas o que ele fez?
E ele de novo faz um rodeio:
– Eu fui casado três vezes. Quando casei com a primeira mulher, ela já tinha um filho. Tivemos outro. Ela foi embora, eu fiquei com os dois meninos. Arranjei outra mulher, que já tinha duas meninas. Ela morreu! Eu fiquei com as meninas. Hoje, estou com a terceira mulher, que tem dois meninos. Todos eles estão comigo e são meus filhos.
Eu fiquei sem entender para onde ele queria levar o desfecho da história. A jovem também. E foi ela que o instigou:
– O que tem a ver uma coisa com a outra?
Ele finalmente contou:
– O árabe, quando começou a campanha, levou a família para TV, botou todos num estufado e disse: Essa é minha mulher. Esses são meus filhos. E esses são meus enteados. Ora, isso é uma humilhação para os meninos. Pai é quem cria.
Na primeira parada da Cidade Nova eu desci e dois continuaram a conversa.
* Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
