O Arrependido
Publicado em: 13/09/2011 às 00:00 | Atualizado em: 13/09/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
Chamei-o de “O Arrependido” por causa da história que ele contava no busão. Com manchas de sangue na roupa, parecia ter saído de um campo de batalha e, ainda agitando, ofegante, repetia várias vezes que, por causa do que havia feito há poucos instantes, estava sendo obrigado a procurar uma delegacia de polícia:
– Eu vou lá porque os policiais disseram: “É melhor você registrar uma ocorrência, senão, você pode se complicar, se ele morrer”.
O comentário despertou minhas antenas de passageiro-repórter. Na verdade, despertou muito mais meus sensores de repórter, pois o que ele falava poderia se tornar um escandaloso caso policial.
Depois que ele falou que havia sido orientado por policiais a registrar a ocorrência, fiquei a imaginar a manchete do dia seguinte: “Polícia dá fuga a assassino” ou “Policiais mandam assassino abandonar cena do crime”.
Então, amiga e amigo do busão, para colher mais elementos para a reportagem, procurando não chamar atenção, deixei minha cadeira discretamente, fingindo que iria desembarcar e fui morcegar (ficar perdurado no apoio do teto do ônibus) ao lado do até então suposto agressor.
Tão logo me posicionei ao lado dele, ouvi: “Olha como está ficando minha mão”. E já que pedia para olhar, não me fiz de rogado e aproveitei. Senhores, para que vocês tenham noção do que eu vi, falarei usando metáfora: a mão dele estava se transformando num sapo cururu, daqueles bem crescidos.
Quando observei os detalhes da mão do agressor (nem vou contar dos pontapés que ele disse ter desferido), compadeci-me da vítima, que eu sequer sabia quem era, mas a musculatura dos braços que desferiram o golpe deixava claro que os policiais estavam com razão em prever que a vítima poderia morrer.
Porém, quem poderia ser a vítima? Quem poderia ter provocado a fúria daquele homem que foi capaz de acabar com a própria mão? Enquanto inquiria a mim mesmo, ouvi-o dizer:
– Se eu soubesse que eram só duas latas de óleo, eu não teria feito aquilo.
Eu já não aguentava mais tanta curiosidade em saber o que havia acontecido, mas fui ajudado por outra pessoa que perguntou ao homem o que acontecera e, finalmente, menos agitado contou:
“Eu estava aqui na saída do bairro, disse ele apontado para a entrada do bairro Parque São Pedro, na Zona Norte, quando minha mulher ligou dizendo que dois ladrões tinham entrado na loja”.
E outro passageiro interrompeu-o:
– Agora?
E ele continuou:
“Agora! Aí, eu pedi que ela descrevesse eles e ela me falou que os ladrões estavam numa moto e que tinham feito uma limpeza no comércio. Eu perguntei se ela tinha anotado a placa da moto. E pois não é que o número coincidia com os da moto dos caras que estavam ali, no meu lado”.
E aí? – perguntou o outro passageiro.
– E aí, que, se não fosse a polícia chegar, eu teria acabado com o ladrão que eu peguei. Depois, eu perguntei dele: cadê o resto da mercadoria? E o bandido respondeu (disse ele rindo):
“Não, senhor, eu só peguei duas latas de óleo, mas juro que nunca mais quero ver óleo de cozinha na minha vida”.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
