Janelas abertas!

Publicado em: 23/09/2008 às 00:00 | Atualizado em: 23/09/2008 às 00:00

Michelle Portela*

A informática facilitou a vida dos trabalhadores, mas ao mesmo tempo aprofundou as diferenças entre as classes sociais. Percebi como a frase, tão repetida sem conhecimento de causa no meu cotidiano acadêmico, é sentida na pele, ao conhecer três mulheres na manhã desta terça-feira (23), durante inauguração de um telecentro na comunidade Rio Piorini, no bairro Novo Israel.

Elas não lerão este artigo porque não sabem utilizar um computador ou desconhecem um vocabulário mínimo de inglês, a língua mais falada na Internet, que, por sua vez, nunca acessaram. Antes mesmo da inauguração do telecentro, procuravam uma vaga no curso de informática básica.

Nenhuma delas concluiu o antigo Segundo Grau, atual Ensino Médio, e, como chefes de família, enfrentam jornada dupla, como trabalhadoras e donas de casa. Contrariando o estigma do comodismo, ontem, foram brigar por novas oportunidades. Para mim, ressaltaram a vontade de conhecer um novo mundo: a internet. “Quero conhecer como funciona um computador, acessar a internet, coisa que nunca fiz”, disse-me Kedma Oliveira Vasconcelos, 21, ao sentar-se pela primeira vez à frente de um micro.

Há nove anos, Lúcia de Almeida usou um computador, porém, em uma única oportunidade. Desempregada, ela vislumbra a possibilidade de voltar ao mercado de trabalho tendo o curso de informática básica no currículo. “É o básico, mas nós não sabemos nem o básico”.

Cleidimar Patrícia de Oliveira, 24, quer melhorar seu desempenho e buscar novas oportunidades no emprego. “Quando me mandam fazer, muitas vezes não sei como. Quero conhecer mais”, afirma.

A iniciativa é inédita na comunidade Rio Piorini, no bairro Novo Israel. “Nosso bairro é escasso de tudo. Se buscamos qualquer atendimento, precisamos nos deslocar. Não temos escolas ou posto de saúde”, diz Maria Assunção da Silva Alfaia, 34, educadora popular e uma das coordenadoras do telecentro.

Fora das estruturas sociais da modernidade, estão condenadas a perder boas oportunidades de emprego. Sabe-se que, nesse mundo, as portas se fechem aos mais pobres e menos escolarizados. O filósofo e escritor francês Pierre Lévy acredita que o Brasil não é um excluído digital do mundo moderno. Para a inteligência coletiva, o principal obstáculo à participação não é a falta de computador, mas o analfabetismo e a falta de recursos culturais.

Imaginemos, em um País como o Brasil, o impacto que “o acesso” traria. A internet, ainda dialogando com Lévy, decerto aumenta as possibilidades de informação e controle democrático sobre as ações governamentais, bem como sobre as grandes empresas e todos os poderes de um modo geral. Porém, é preciso compreender o crescimento da internet como o prosseguimento do nascimento e da extensão da esfera pública que se manifestou com o desenvolvimento sucessivo da imprensa, do rádio e da televisão. O conjunto da sociedade se tornou um pouco mais visível, mais transparente, e, sobretudo, um número maior de pessoas puderam exprimir seus pontos de vista.

A internet permite, hoje, que milhões de pessoas se dirijam a um vasto público internacional – pessoas que não teriam podido publicar suas idéias nas mídias clássicas como a edição em papel, nos jornais ou em televisão. O TEXTOBR.COM surge como um movimento genuíno e convergente a essa análise.

Lévi me tranqüiliza, pois nessa hora de agonia, me auxilia na reflexão. Ao longo prazo, é possível que o uso da internet conduza a uma renovação da democracia participativa local e a formas de governo mundial mais eficazes do que as atuais. Evidentemente, nada disso acontecerá sem um comprometimento ativo dos cidadãos. A tecnologia se limita a abrir possibilidades. Somente a atuação das pessoas permite que elas se realizem bem.

Estou envergonhada. Sou cúmplice disso tudo. Pago uma internet cara, reclamo pouco da baixa qualidade do serviço e nem sabia que a comunidade Rio Piorini já estava asfaltada ou tinha abastecimento de energia. Na verdade, nem sabia onde ficava. Para a maioria, existem como uma massa de indesejáveis. Ao escrever esse texto, sofri porque não conseguia me definir pela identificação, ou não, das referidas entrevistadas. Decidi pelo sim. Ao me dar voz, quero oferecer a essas mulheres, minhas boas-vindas a um novo mundo!


* jornalista e mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia.

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