Diante do teste
Publicado em: 29/07/2009 às 00:00 | Atualizado em: 29/07/2009 às 00:00
Ivânia Vieira*
O que dizer sobre a dor da perda? E como falar dela quando chega em três versões? É como vendaval inesperado. Arrasta quase tudo para longe, abre buracos enormes. Ficamos pequeninos, sem saber sobre o próximo passo a ser dado, sobre qual palavra escrever. Ainda é de agonia o momento vivido com essa viagem veloz e não anunciada, do Vando, do Marcos Figueira e do Narciso Lobo. O primeiro se foi um dia antes e os outros dois no mesmo dia desse mês de julho.
As lentes estão embaçadas, parecem anunciar o não-encontro enquanto nas ruas os detalhes de cada um deles se multiplicam nas pessoas, colocando em dúvida se os três realmente não estão mais entre nós. Nossa! Ainda vejo, dois anos depois, tantos Ivomar revividos nos cabelos grandes, presos, nas sandálias ‘franciscanas’, no sorriso aberto, bonito, na conversa despojada que tanto sucesso fazia. Os três juntam-se a essa sensação como desculpa para aliviar a tristeza ou, quem sabe, descobrir nas semelhanças até então ignoradas um sinal da eterna permanência deles entre nós.
Tento recolher os fragmentos deixados por esse vendaval. Sem jeito, procuro reuni-los e, assim, perceber, com a reconstrução, outras vidas nascidas dessas existências. É nessa colheita, feita de lembranças e da saudade irracionalmente doída, que a vida vivida por eles desfila teimosamente.
Vando, com os irmãos, ocupou, desde menino, parte dos natais e dos dias das crianças da minha vida, nos fazendo realizar peripécias em nome da fantasia coletiva. Vivia, agora, a fase da descoberta dos desafios de ser um jovem pai, sem desgrudar dos irmãos, sorrindo para todos nós, o mesmo sorriso que só a mãe deles sabia sorrir.
Marcos espalhou em nosso mundo a música e seu amor pelo rádio, pela cultura, pelos livros, somou de corpo e alma com a comunicação popular e, perturbadoramente, voou para viver todas as suas paixões tentando conjugar em novos tempos de cantoria o verbo liberdade.
Narciso abraçou a ousadia, desde o tempo do jornalismo de resistência, na poesia-denúncia ou apenas na condição de amante, em meio a livros, artigos, alunos e, mais recentemente, no blog, Como professor, insistiu na importância da formação humanística, na construção de um curso de Jornalismo competente e solidário porque entendia ser esse o outro papel da academia. Vivia o melhor momento de pesquisador e reunia projetos, em forma de sonho, para o qual não parava de convocar os estudantes e as organizações populares.
O que dizer? Se a compreensão sobre a morte insiste em não acontecer. Ana Célia Ossame diz que o cristal quebrado é a vida, tão bonita, em pedaços no chão. Então, emocionalmente desorganizada, tento espalhar esses cristais que passaram por nossas vidas.
*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Universidade Federal do Amazonas.
