Dia de sorte do assaltante
Publicado em: 19/09/2009 às 00:00 | Atualizado em: 19/09/2009 às 00:00
O desespero do assaltante era tanto que ele pedia socorro à polícia. Os gritos que se ouviam no 418 vinham do 352. Eram tão apavorantes que o motorista freou bruscamente o carro. Quem sentava à janela pôs a cabeça para fora. Outros se esticavam por trás para ver o que estava acontecendo. E eu saquei a caneta e puxei da mochila minha caderneta de anotações.
Tomando cotoveladas e dando empurrões, consegui descer do ônibus. A esta altura, o 352 já estava cercado de curiosos. De dentro, ouviam-se apelos: “Chamem a polícia, pelo amor de Deus! Ele vai matar o assaltante”. O medo dos passageiros era de um policial militar alto e bombado que arrastava para fora do ônibus um corpo raquítico pelo pescoço.
Já no chão, o PM pressionou ainda mais o pescoço do bandido com o braço direito e tentou sufocá-lo, apertando o nariz com a mão esquerda. Aquela cena tirava o ar até de quem assistia à violência. Mas a agonia só estava começando. A situação ficou ainda pior quando outro rapaz começou a chutar o assaltante.
Por um instante, vi que ele estava nos últimos momentos de sua vida. Dominado, à beira da rua, a vítima se debatia como um animal em sacrifício. Da boca, o sangue começava a escorrer; o rosto escurecia rapidamente; e olhos arregalados revelavam que ele estava para dar o último suspiro.
Populares começaram a se revoltar contra a brutalidade. As pessoas que antes apoiavam a agressão passaram a sair em defesa do ladrão. Mas era um apelo em vão, pois o policial imobilizava o rapaz como animal sobre sua presa.
Eu também não segurei a indignação. Pedi que o PM bombado parasse com a violência, mas fui intimidado pelo segundo agressor, que tentou tomar a caderneta e o telefone celular que eu usava como máquina fotográfica. Me impus dizendo que eu era o repórter do busão, mas foi pior.
A confusão se voltou contra mim, mas não aliviou a situação do assaltante. Ele continuava sendo massacrado, até que um cidadão, de cabelos brancos, interveio na brutalidade. O que eu tentei com várias palavras ele conseguiu apenas com duas perguntas ao policial:
– Quem é mais bandido aqui?
O PM respondeu:
– Ele estava batendo carteira dentro do ônibus.
O cidadão insistiu:
– Quem é mais bandido: ele que roubou ou você que tenta matá-lo?
O ladrão percebeu que as pessoas saíam em sua defesa e entrou na conversa:
– Quem disse que eu estava roubando? Prova que eu estava roubando!
O bombado se enfureceu e novamente o atracou, quando ele gritou: “Chama logo a polícia, chama! Chama que ele vai me matar”.
Seus pedidos foram atendidos. Tão logo fechou a boca, um ônibus da PM, cheio de policiais em uniforme de educação física, apareceu. Ao entrar na viatura, porém, ele volta a gritar: “Chamem a polícia, esse aqui é o Batalhão de Choque”.
Perto de mim, o homem de cabelos brancos comentou: “Ah, assaltante de sorte”.
*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

