Antes da morte

Publicado em: 03/11/2011 às 00:00 | Atualizado em: 03/11/2011 às 00:00

Neuton Corrêa*

Já testemunhei e ouvi fatos de pedidos que se fazem antes da morte. É claro que são apelos de pessoas que sabem que a única solução para a vida, naquele extremo instante, é a morte. Mas desejar ver um policial antes da derradeira viagem era a primeira vez. Aconteceu a bordo do 125, véspera do feriado do Dia da Criança.

Não escutei a conversa inteira, apenas um pedaço. E esse pedaço, uma súplica: “Senhor, antes ‘deu’ morrer, mande-me um policial, ao menos um policial”. A própria frase saía espedaçada: o vocativo (senhor), ofegante e, talvez por isso, a pronúncia das orações seguintes tenha vindo emendada, para esperar longamente o complemento da sentença (ao menos um policial).

Depois disso, o passageiro desceu à altura do bulevar Álvaro Maia, em frente ao primeiro portão do cemitério São João Batista, dando apenas um “tchau” bem baixinho, quase sussurrado, para a pessoa que lhe ouvia.

Tentei imaginar o que poderia ter acontecido àquele homem, mas o barulho do motor e o silêncio de vozes da ausência de passageiros na linha universitária em véspera de feriado eram as únicas coisas que se podiam ouvir.

Até poderia perguntar ao estudante que ficara ali (acho que era um estudante, porque ele estava com bolsa e lia um texto pintado de cores luminosas), mas não me senti encorajado. As linhas da área central não são como as de periferia, onde todo mundo conversa de tudo e fala de todos sem cerimônia.

Então, passei a conjecturar coisas para tentar alcançar um raciocínio que me pudesse fazer imaginar a situação que aquele homem alto e forte, no vigor físico de sua idade (não creio que ele tivesse mais de quarenta anos), tivesse vivido para implorar a Deus o último desejo de sua vida.

Aquela frase, “senhor, […] ao menos um policial”, martelou meu juízo por alguns instantes, ainda mais porque um dia antes, uma conhecida da família, após longo sofrimento, recebera a notícia de que sua pressão estava 7 por 4 e que sua partida era questão de horas (no máximo).

A velha amiga, então, preparou-se. Chamou os filhos, primeiro um a um. Não eram tantos, apenas três, que não se falavam depois de um bate-papo que deixou a casa deles como um campo de guerra com pedaços de paus e facas atiradas para todos os lados. Mas, no fim, a morte acabou unindo-os, atendendo ao pedido da mãe.

Eu também fiquei imaginando qual seria meu último desejo. Pensei, pensei e pensei. Se fosse hoje, nem pensaria duas vezes. Rogaria a Deus, honestamente: “Deus, meu amigo, deixe-me aqui”. E se ele não atendesse minhas preces faria o que mandou fazer um conhecido cidadão de minha terra, que pediu aos filhos, e foi atendido, que se mandasse escrever em sua lápide: “Aqui, jaz, muito contrariado, Otávio Guedes de Araújo”.

Depois disso, recobrei o juízo, dei três cascudinhos no banco do ônibus e voltei a pensar na frase: “Senhor, antes de eu morrer, mande-me um policial, ao menos um policial”, decido a perguntar de meu parceiro de viagem sobre o que aquele homem havia falado, mas, quando me encorajei, que me aproximei, o passageiro se levantou e puxou a cordinha para desembarcar.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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