A sucumbência de um soldado da malária
Publicado em: 02/11/2009 às 00:00 | Atualizado em: 02/11/2009 às 00:00
Massilon de Medeiros Cursino*
Moribundo, com a tez cianosada e pálida, inerte a tudo como quem está viajando em seus pensamentos. Mais um soldado se despede dos seus. Desta vez não mais retornará para contar as estórias e bravatas de quem combateu com coragem o exército inimigo.
Sem o seu fardamento cáqui, sem seu par de botas pretas, sem sequer seu boné que ostentava sobre o quepe o mapa do Brasil. Diferentemente de outrora, também não estava mais armado com sua bomba de burrifo em que sempre carregava a mistura à base de Dicloro Difenil Tricloroetano, o DDT.
Como membro da fileira de um exército, tinha que enfrentar, além da saudade dos familiares, o rio, a mata fechada e as intempéries da densa floresta tropical. Ia ao encontro hostil para afrontar um combatente minúsculo, porém de uma agressividade funesta. O opositor era um pequeno inseto, culicídeo do gênero anópheles que se agigantava por ser o transmissor de uma doença parasitária de evolução crônica, a malária ou maleita. A doença que se tornara a mais expressiva das endemias tinha que ser combatida com o rigor de um exército preparado para uma verdadeira guerra.
A maior altivez do soldado da malária era poder dizer que não havia uma residência, por mais longínqua que fosse, sem registro da sigla de sua campanha e a respectiva numeração de controle.
O DDT utilizado para chacinar o anopheles que transmitia o impaludismo era o veneno amigo, pois já havia evitado milhões de mortes e inspirado até um Prêmio Nobel. No entanto, como também ocorre em outras guerras, o companheiro pode vir a se tornar o próprio algoz. Assim se procedeu com o DDT, que acabou por exteriorizar sua outra face.
O tempo se encarregou de promover um novo desafio ao combatente. O soldado, não mais com sua juventude e força, teve pela frente mais uma contenda, muito mais forte que aquele minúsculo inseto, além de que apresentava uma feracidade capaz de sobrepujar rapidamente seu contendor. Desta forma, o soldado se fez traído por aquele que sempre julgou ser seu maior aliado, através de uma detração irreparável.
O soldado Zé Assis foi mais uma vítima. Partiu ao encontro de seus companheiros de luta. São todos heróis anônimos, Homens que sacrificaram suas vidas na defesa da vida de seu povo. Eles singraram os rios, embrenharam-se nas matas e venceram uma longa guerra, todavia, saíram feridos de morte pelos furúnculos e sarcomas.
Diante de uma cena que se torna cada vez mais comum, na qualidade de órfão de um soldado da malária, que sentiu na pele a mesma dor que ora vivem os familiares do senhor Zé Assis, imploro providências ao poder público, ao Ministério da Saúde, a reparação das seqüelas que essa guerra causou a seus combatentes. Isso é o mínimo a exigir, em nome de quem com muita altanaria sacrificou a própria vida para cumprir um fiel dever de Estado!
*Economista e bacharel em Direito.
