Rio: corpos decapitados e desmembrados explicam legítima defesa?

Moradores e associação da Penha relatam execuções e torturas em operação que deixou 119 mortos, o maior massacre da história do Rio.

Publicado em: 29/10/2025 às 20:02 | Atualizado em: 29/10/2025 às 20:03

O que restou do Complexo da Penha na manhã desta quarta-feira (29) foi o retrato de uma guerra.
Corpos mutilados, decapitados e empilhados diante da Associação de Moradores do Parque Proletário transformaram o bairro em um cenário de horror. A operação policial de terça-feira (28), anunciada como “de combate ao tráfico”, terminou como o episódio mais letal da história fluminense: 119 mortos.

Moradores e familiares chamam de “carnificina” o que o governo insiste em classificar como “legítima defesa”. Relatos colhidos pela Agência Brasil indicam execuções sumárias, torturas e até impedimento de socorro.

“A gente ouviu gritos e pedidos de ajuda. Quando subimos pra socorrer, a polícia ainda estava atirando. Tivemos que nos esconder entre os corpos”, contou um morador de 25 anos, que prefere não se identificar.

A testemunha afirma ter visto corpos fuzilados e decapitados, com mãos e dedos cortados. Um deles, identificado como Ravel, foi encontrado com a cabeça presa entre galhos de uma árvore.
“Eles [os policiais] não paravam de atirar. A gente só queria tirar os feridos dali”, disse.

Segundo Erivelton Vidal Corrêa, presidente da associação comunitária, 80 corpos foram retirados da Mata da Pedreira pelos próprios moradores.

“Pedimos lençóis e toalhas para enrolar os corpos. Muitos estavam deformados, com perfurações no rosto, cortes de faca e sem digitais. Isso não foi operação, foi genocídio”, denunciou.

Entre os mortos estavam dois irmãos manauaras, achados abraçados, cada um com um tiro no rosto.
Outros foram encontrados sem camisa, com sinais de tortura e execução.
Moradores relatam que várias vítimas haviam se rendido, jogado as armas no chão e pedido perdão antes de serem mortas.

“Eles não eram santos, mas estavam vivos quando a polícia pegou. Podiam prender, mas preferiram matar”, disse Correa.

O cenário foi confirmado por funerárias locais, responsáveis pela remoção.
“O estado dos corpos é precário. Foi uma chacina”, afirmou Fernando Argivaes, dono de uma agência funerária que atua há 22 anos na Penha.

Mães também relataram execuções.

“Meu filho pediu ajuda: ‘mãe, me ajuda, pelo amor de Deus’. Quando conseguimos subir, estavam todos mortos”, contou Elizângela Silva, enquanto exibia vídeos dos tiros na mata.

As denúncias de execução de rendidos e desaparecimento de provas serão incluídas no relatório da ADPF das Favelas, em análise no Supremo Tribunal Federal (STF).

Enquanto o governador Cláudio Castro insiste em dizer que a operação foi um sucesso, as famílias seguem velando os corpos — e o Brasil, mais uma vez, tenta entender o que chamam de legítima defesa.

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Foto: Renato Silva/Voz das Comunidades

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