Vice da Câmara defende mobilização popular para afastar Bolsonaro

Ramos afirma que para que o processo de impeachment tenha andamento no parlamento é preciso mobilização da população

Iram Alfaia, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 24/09/2021 às 14:00 | Atualizado em: 24/09/2021 às 14:00

O vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos (PL-AM), diz que tem convicção jurídica de que o presidente Jair Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade, mas para que o processo de impeachment tenha andamento no parlamento é preciso mobilização popular.

“O pior cenário que poderia acontecer hoje seria o aceite do pedido de impeachment com a derrota por não alcançar os 342 votos no plenário, isso sim daria muita força a Bolsonaro para retomar sua marcha autoritária”, disse o deputado.

Na ausência do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), Marcelo Ramos daria a palavra final sobre algum pedido para abrir processo de impeachment contra o presidente.

“Tenho absoluta convicção de que as condicionantes jurídicas estão postas, mas as condicionantes políticas dependem do crescimento da mobilização popular que certamente pressionará dentro do parlamento”, afirmou.

De acordo com ele, a matéria tem de ser tratada não só com firmeza e mobilização popular, mas com prudência e responsabilidade.

“Há o crime de responsabilidade e se existia alguma dúvida até o dia 7 de setembro, o 7 de Setembro deixou as dúvidas de lado e deu a confirmação”, disse.

Ele fez referência a ameaça de desobediência as decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), feitas pelo presidente nos atos antidemocráticos do dia 7.

“O presidente Bolsonaro já incorreu nos tipos penais de crimes de responsabilidade previstos nos incisos II e VII do artigo 85 da Constituição Federal, mas eu sempre costumo dizer, até como professor de direito constitucional, que impeachment não é só processo jurídico, impeachment é processo de natureza jurídica e política. Tanto que é o único crime que não é julgado e processado pelo poder Judiciário. É processado e julgado pelo poder Legislativo”, explicou.

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Unidade

O deputado considerou também como fundamental a unidade de todas as forças políticas em prol da democracia.

Para ele, há incompreensões no ato (na Avenida Paulista dia 12) promovido pelo Movimento Brasil Livre (MBL) quando se tenta igualar as condições do ex-presidente Lula com a de Bolsonaro.

“Como se Lula representasse o mesmo risco à democracia, o que efetivamente não é verdade. Por outro lado, o PT é um partido tradicional, com militância, com mais experiência que o MBL, capaz de compreender essa incompreensão e participar de um esforço pela unidade”, defendeu.

Na sua avaliação, após o ato, as pontes que foram criadas entre MBL e o PT, e os partidos que não participaram daquele evento, podem mostrar que o caminho correto na atual quadra política é o caminho da unidade em torno da democracia.

“Nós precisamos garantir as eleições até para que PT e o MBL possam disputar opinião nas eleições. Então o grande desafio é construir a unidade para garantir a estabilidade democrática no nosso país”, argumentou.

Depois de vencer a barreira das ameaças, Ramos diz que as forças políticas terão as chances de disputar opinião, por exemplo, no campo da economia e no meio ambiente.

“Eu fui e sou duramente criticado pelo MBL no meu Estado e fiz questão de ir à manifestação justamente para o que o MBL siga detento direito de continuar com liberdade para saber conviver com as nossas diferenças e buscar convergências”, afirmou.

“Existem valores que não pertencem a esquerda e nem a direita: o direito ao trabalho, a alimentação e o direito a democracia. Isso não tem dono e nós precisamos ser capazes de unir todos os brasileiros e brasileiras que topem lutar por esses valores”, completou.

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Recuo tático

O vice-presidente da Câmara diz que Bolsonaro fez “movimento tático de recuo para organizar suas forças lá na frente e tentar dar um novo bote”.

“Até porque parece-me que pra ele já está absolutamente claro que, do ponto de vista eleitoral, ele se torna cada vez mais um candidato inviável.”

“Ele vive de tentativa de erro, de testar os limites da nossa democracia. Ele claramente usou o dia 7 para testar esse limite, infelizmente pra ele não houve eco nos setores militares, as Forças Armadas, e nem das forças policiais”, disse.

O deputado avaliou que houve muita gente na rua, mas não suficiente para sustentar a tese de uma saída fora da democracia.

“Além disso, com essa tentativa, ele explodiu todas as pontes com o campo que tem responsabilidade com a democracia no país”, considerou.

Sobre a carta à nação do presidente, o deputado lembrou de uma conversa reservada com um general, quando ouviu: “Ninguém pede trégua quando está na ofensiva. Quem pede trégua e negociação de paz é por que sabe que não tem força para vencer a guerra.”

Brasil real

O deputado diz que é preciso a união de todo o campo democrático no país para dar resposta a um Brasil real.

“O Brasil do gás cozinha de R$ 120 em Humaitá, gasolina R$ 7,50 em Envira e carne a R$ 60 o quilo em São Paulo de Olivença. Esse é o Brasil que merece a nossa resposta”, disse.

Ramos destacou ainda os 14,8 milhões de desempregados e 19 milhões que passam fome atualmente.

“Em São Paulo, não há uma rua que você passe que não tenha uma família morando. Alguém que já teve emprego, que com muito trabalho conseguiu sustentar sua família com o mínimo de dignidade.”

Criticou a inflação e os juros descontrolados, beirando os dois dígitos no curto e longo prazo.

“A crise no Brasil desceu da consciência para o bolso. A crise no Brasil de um passado recente era de quem não aceitava os discursos autoritários, as agressões do presidente aos outros poderes. Hoje a crise real é do cidadão que está indignado porque voltou a cozinhar à lenha. Por que lá em Humaitá o gás de cozinha está R$ 120”, lamentou.

Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados