ZFM: R$ 230 bilhões por ano, 130 mil empregos e uma ambulância no polo industrial
O vazamento de gás na Innova expõe uma discussão que o Amazonas adiou por décadas: um polo industrial bilionário precisa investir tanto em segurança quanto em produção.
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 16/07/2026 às 07:38 | Atualizado em: 16/07/2026 às 07:43
O polo industrial da Zona Franca de Manaus (ZFM) reúne mais de 600 empresas, emprega cerca de 130 mil trabalhadores e faturou aproximadamente R$ 230 bilhões em 2025. É o principal sustentáculo da economia do Amazonas e um dos maiores complexos fabris do Brasil e da América Latina.
Mas, segundo informação dada ao BNC pelo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas, Valdemir Santana, apenas uma fábrica instalada no polo mantém ambulância própria para atendimento de emergência: a Honda.
O contraste, por si só, é suficiente para causar espanto.
Ganha, porém, uma dimensão ainda maior depois do vazamento de gás ocorrido às 17h45 desta quarta-feira, 15 de julho, na fábrica da Innova, no Distrito Industrial de Manaus.
Mais de doze horas depois do acidente, o cheiro ainda podia ser percebido em partes da cidade. Os ventos que sopraram sobre Manaus, porém, não foram suficientes para dissipá-lo completamente.
Também não podem apagar as perguntas deixadas pelo episódio.
Até aqui, não está claro qual substância vazou, qual foi a extensão real do acidente, quais riscos foram impostos aos trabalhadores das fábricas vizinhas e à população, nem quais protocolos de segurança foram acionados.
Não se ouviram alarmes.
Não foi apresentado publicamente um plano de contenção.
Não houve comunicação imediata e organizada à população.
A notícia circulou primeiro pelas redes sociais, alimentada por relatos de trabalhadores e moradores que sentiram o forte odor em diferentes áreas de Manaus.
A fita de isolamento colocada diante da Innova parecia insuficiente diante da dimensão do episódio. O vazamento ocorreu na parte posterior da fábrica, área que faz limite com a planta da Honda, onde trabalham 10 mil pessoas.
O gás ultrapassou os limites da empresa.
Esse ponto é central.
Quando um acidente industrial rompe os muros de uma fábrica e alcança outras empresas, ruas, bairros e trabalhadores, ele deixa de ser apenas um problema interno. Passa a ser um assunto de interesse público.
Por isso, a Innova precisa dizer com clareza o que aconteceu.
Também precisam se manifestar os órgãos responsáveis pela fiscalização, pelo meio ambiente, pela saúde pública, pela segurança do trabalho e pela defesa civil.
Quais procedimentos foram adotados?
A fábrica possuía plano de emergência?
As empresas próximas foram avisadas?
Houve orientação para retirada de trabalhadores?
Existia risco de explosão, intoxicação ou agravamento do vazamento?
Quais medidas impedirão que algo semelhante volte a acontecer?
O silêncio não pode ser aceito como protocolo.
O episódio da Innova ocorre menos de um ano depois do incêndio de grandes proporções que destruiu a fábrica da Effa Motors, em 5 de agosto de 2025.
Na ocasião, veio à tona a informação de que a montadora não possuía sistema adequado de combate a incêndio.
A fumaça daquele incêndio desapareceu. O prédio destruído permaneceu como marca visível da tragédia. Mas a discussão sobre segurança industrial não avançou na proporção exigida pelo episódio.
Agora, o vazamento da Innova recoloca o tema diante da cidade.
Não se pode tratar os dois casos como fatos isolados, destinados ao esquecimento assim que cessarem o fogo, a fumaça ou o cheiro de gás.
Eles são sinais.
E os sinais indicam que o descuido com a segurança de trabalhadores e da população pode ter chegado a um limite perigoso.
Durante décadas, o Amazonas voltou suas energias para a defesa da Zona Franca de Manaus. Foi uma luta necessária e permanente.
O estado enfrentou ameaças aos incentivos fiscais, pressões de setores econômicos de outras regiões, mudanças tributárias e tentativas recorrentes de enfraquecimento do modelo.
Essa defesa continua indispensável.
O Polo Industrial é pai e mãe de milhares de famílias amazonenses. Sustenta empregos, arrecadação, comércio, serviços e boa parte da atividade econômica regional.
Mas defender o PIM não pode significar apenas defender faturamento, incentivos fiscais, produtividade e competitividade.
É preciso defender também as pessoas que entram todos os dias nas fábricas e movimentam essa engrenagem.
O mesmo polo que celebra recordes de faturamento precisa apresentar números sobre segurança.
Quantas fábricas possuem ambulâncias?
Quantas dispõem de equipes permanentes de emergência?
Quantas realizam treinamentos de evacuação?
Quantas têm sistemas eficientes de combate a incêndio?
Quantas possuem planos integrados com as empresas vizinhas?
Quantas estão preparadas para enfrentar vazamentos químicos, explosões, incêndios e acidentes de grandes proporções?
Essas informações deveriam ser públicas.
Segurança industrial não pode ser tratada como segredo empresarial. Tampouco pode depender apenas da iniciativa isolada de uma ou outra empresa.
O Distrito Industrial é um território compartilhado por fábricas, trabalhadores, vias públicas e comunidades vizinhas. Um acidente em uma planta pode rapidamente atingir outra e produzir efeitos muito além da área onde começou.
Por isso, o Polo Industrial precisa de protocolos integrados, fiscalização permanente, planos de evacuação, sistemas de alerta e comunicação pública imediata.
Precisa também de estrutura de atendimento de emergência compatível com seu tamanho.
É inaceitável que um complexo com mais de 600 empresas, 130 mil trabalhadores e faturamento de R$ 230 bilhões conte, segundo o sindicato da categoria, com apenas uma ambulância mantida por uma fábrica.
Não se trata de exigir que cada unidade industrial mantenha um hospital dentro de seus muros.
Trata-se de reconhecer que um parque dessa dimensão precisa possuir uma rede de resposta rápida, coordenada e suficiente para proteger quem trabalha nele.
Valdemir Santana afirma que a luta do Sindicato dos Metalúrgicos por ambulâncias e por outras medidas de segurança é antiga, mas enfrenta resistência dos empregadores.
Essa resistência precisa ser discutida publicamente.
A segurança de trabalhadores não pode ser reduzida a uma planilha de custos. Ambulâncias, brigadas treinadas, equipamentos, inspeções e protocolos de emergência não são despesas dispensáveis.
São parte da própria atividade industrial.
O acidente da Innova precisa inaugurar um novo momento no Polo Industrial de Manaus.
Um momento de fiscalização, transparência e revisão dos procedimentos adotados pelas empresas e pelos órgãos públicos.
Um momento em que o Amazonas continue defendendo a Zona Franca, mas passe a cobrar dela não apenas resultados econômicos.
Um faturamento de R$ 230 bilhões impressiona.
A geração de 130 mil empregos merece ser celebrada.
Mas nenhum desses números pode servir para esconder outro, constrangedor e alarmante.
Mais de 600 empresas.
Cerca de 130 mil trabalhadores.
E apenas uma ambulância.
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