O Estado contra os tambores em Manaus

Aldenor Ferreira analisa como a invasão policial a um terreiro em Manaus revela o avanço da intolerância religiosa e os desafios democráticos diante do neofascismo no Brasil.

O Estado contra os tambores

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 04/07/2026 às 08:00 | Atualizado em: 03/07/2026 às 19:54

O Estado contra os tambores não é apenas a imagem brutal de uma ação policial ocorrida em Manaus nesta semana.

É, antes de tudo, o retrato de um país que ainda carrega profundas dificuldades para conviver com a diversidade religiosa e, mais grave, que começa a normalizar práticas autoritárias dentro das próprias instituições democráticas.

A invasão policial ao Centro Religioso Mina Jéje-Nagô Nossa Senhora da Conceição, com interrupção de culto e apreensão de tambores sagrados, ultrapassa qualquer justificativa administrativa.

O episódio expõe algo maior. Expõe o avanço de uma lógica de perseguição moral, religiosa e política que tem ganhado força no Brasil contemporâneo.

Não se trata de um caso isolado. Pelo contrário, nos últimos anos, terreiros, casas de santo e espaços de matriz africana passaram a ocupar um lugar central no mapa da intolerância religiosa brasileira.

Isso ocorre porque, em grande medida, o neofascismo encontrou no radicalismo neopentecostal uma base cultural poderosa para expandir sua visão de mundo.

Fusão perigosa

Essa fusão é perigosa.

De um lado, o neofascismo opera pela lógica da guerra permanente. Alimenta-se da fabricação constante de inimigos, da construção de ameaças e da divisão do mundo entre puros e impuros.

De outro, setores radicalizados do neopentecostalismo oferecem exatamente essa gramática moral: a batalha entre o bem e o mal, entre os escolhidos e os condenados, entre Deus e o demônio.

Nesse arranjo, os terreiros ocupam lugar simbólico central. Não por acaso, o Estado contra os tambores reaparece justamente nos ambientes onde o bolsonarismo cultural se consolidou com mais intensidade. A perseguição às religiões de matriz africana revela como essa lógica autoritária se espalhou pelo país.

Afinal, atacar essas tradições significa atacar a própria memória negra, a ancestralidade africana e a pluralidade cultural brasileira. E isso nunca é apenas religião. Isso é política, poder, enfim, é controle social.

A polícia e guerra moral

O problema se agrava quando essa lógica ultrapassa os templos e entra no aparelho de Estado.

Quando policiais invadem um terreiro e interrompem um ritual sagrado, não estamos diante apenas de um erro operacional. Estamos diante de um sintoma institucional.

Isso significa que parte do Estado começa a agir orientada por valores confessionais e por preconceitos ideológicos.

Esse é um ponto decisivo.

O Estado democrático deve garantir direitos. Deve proteger minorias e assegurar liberdade religiosa.

No entanto, quando agentes públicos passam a selecionar quais crenças merecem respeito, a democracia começa a sofrer corrosão interna.

E essa corrosão é silenciosa. Primeiro, ela atinge os mais vulneráveis. Depois, alcança opositores políticos. Em seguida, normaliza a exceção. Assim funcionam os regimes autoritários.

O fascismo histórico nunca começou pelos grandes eventos. Começou pela perseguição cotidiana, pela naturalização da violência e pela criação de inimigos internos.

No Brasil, esse processo ganha uma forma própria.

Aqui, há uma mistura entre fundamentalismo religioso, militarização da política e moral punitiva. Essa combinação transforma diferenças em ameaças, converte fé em instrumento de poder e legitima práticas de perseguição. O resultado é explosivo.

O desafio dos próximos anos

Por isso, o desafio brasileiro não se resume a derrotar eleitoralmente a extrema-direita. Isso, por si só, é insuficiente. Será preciso fortalecer a democracia em sua dimensão cultural e institucional. Será preciso desbolsonarizar setores do Estado.

Além disso, será preciso desmontar redes de intolerância que se espalharam por quartéis, delegacias, igrejas e espaços políticos.

Sobretudo, será preciso enfrentar células neofascistas e neonazistas que hoje operam em diferentes partes do país, muitas vezes protegidas pelo discurso da liberdade religiosa ou da defesa da família.

Considerações finais

Concluo afirmando que democracia não é isso. Democracia é pluralidade, dissenso e, fundamentalmente, a convivência radical entre diferenças.

Ou seja, quando o Estado se volta contra os tambores na cidade de Manaus, ele não ataca apenas um culto. Ele ataca a Constituição Federal e a memória de um povo. Simplesmente ele ataca o direito de existir material e simbolicamente.

Nesse contexto, quando um Estado começa a escolher quais sons podem ecoar, o silêncio que vem depois nunca é neutro. É sempre autoritário.

O autor é sociólogo*.

Arte: Gilmal.