Ufam realiza primeira defesa de doutorado totalmente indígena

Tese foi apresentada em língua tukano, com banca formada só por indígenas, em feito inédito nos 116 anos da universidade.

Dassuem Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 10/12/2025 às 18:59 | Atualizado em: 10/12/2025 às 19:00

A primeira defesa de tese de doutorado totalmente indígena ocorreu na manhã de hoje, 10 de dezembro, no Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Jaime Moura Fernandes, conhecido como Jaime Diakara, é escritor e artista plástico renomado no meio da arte indígena contemporânea.

Ele defendeu a tese intitulada “Pamüse: a força do sopro e da saliva entre os dessana wahri dihputiro porã no alto rio Negro” para obtenção do título de doutor em antropologia social.

A banca de avaliação foi composta totalmente por indígenas. O orientador foi o professor visitante João Paulo Barreto (povo tukano), e os avaliadores foram: Silvio Barreto (bará), Justino Rezende (tuyuka), Rosilene Fonseca (piratapuya) e João Rivelino Barreto (tukano).

É a primeira vez que uma banca totalmente indígena, em uma língua nativa, é realizada em 116 de existência da Ufam, portanto, um feito histórico.

Defesa em língua tukano

A tese foi defendida na língua tukano. Jaime Diakara é filho de pai dessana e mãe tukano.

É um costume dos povos do alto rio Negro, no estado do Amazonas, realizar casamentos interétnicos. Por isso, seus filhos, costumam falar mais de um idioma indígena.

A língua tukano é bastante difundida entre os povos do alto rio Negro, por influência da catequização, da militarização e das dinâmicas próprias dos casamentos interétnicos. Portanto, a defesa foi realizada em língua tukano, falada e compreendida pela maioria dos membros da banca.

Ao final da fala de cada membro, foi realizada uma tradução resumida para o português, para que os presentes não indígenas acompanhassem a defesa.

Ritual acadêmico

As defesas de trabalho de conclusão de cursos acadêmicos são um ritual de graduação de títulos acadêmicos. Trata-se de uma prova pública na qual o graduando apresenta seu trabalho e é arguido por membros com graduação superior.

A primeira defesa de doutorado do programa da Ufam totalmente indígena fez jus ao momento histórico: foi um ritual acadêmico, mas indígena.

A começar pela organização do espaço, que não foi um auditório, mas na área de convivência do prédio de salas de aula onde localiza-se o programa.

Não havia uma mesa, mas uma esteira de palha, bancos ritualísticos utilizados pelos kumuã (xamã) rionegrinos, instrumentos musicais, livros e notebooks dispostos em frente a uma televisão, pela qual participaram on-line Rosilene Fonseca e João Rivelino Barreto, que estavam em suas cidades de moradia.

Jaime Diakara adentrou o espaço acompanhado por seus familiares, que cantaram e dançaram, antecedidos por um parente que defumou de breu branco o caminho até a esteira.

Em seguida, sentados em seus bancos de kumuã, os membros prosseguiram o rito acadêmico, dando fala ao doutorando e, em seguida, aos seus arguidores.

De tempos em tempos, era servida caiçuma, uma bebida fermentada, que tinha como objetivo ajudar o público presente a compreender organicamente o que era explicado.

A saliva e o sopro

A caiçuma é uma bebida fermentada à base de mandioca, mas pode ser feita também com batata, milho, entre outros carboidratos menos comuns.

Segundo explicou Jaime Diakara, para o processo de fermentação é necessário o uso da saliva de uma mulher.

A salivação é a força que sai da mulher, do corpo feminino que se sustenta por meio da movimentação na vida cotidiana. O corpo da mulher é a conexão com a terra.

Já o homem atua na fabricação da caiçuma por meio do sopro que sai ao tocar os instrumentos e baforar o tabaco.

Fabricação de pensamento

A caiçuma ajudar a formar o pensamento, pois é um líquido que carrega muita vida, adquirida através do processo de feitura e dos ingredientes, que agregam forças sutis da vida na terra.

A ciência indígena, diferente da ciência branca, não é compartimentada, mas integrada no todo.

Desenhos

O uso da língua tukano na explicação possibilitou a expressão original de termos e lógicas difíceis de serem traduzidas, primeiro, para a expressão escrita, já que são conhecimentos baseados na oralidade.

Em segundo, para a língua portuguesa, que possui outra estrutura e lógica.

Do mesmo modo, os desenhos criados por Jaime Diakara, apresentados na tese e na defesa, permitiram visualizar as lógicas integradas do pensamento indígena.

Arguição

A composição da banca feita por outros antropólogos indígenas permitiu um nível mais profundo de arguição. Mesmo entre antropólogos não indígenas, é comum que o conhecimento sistematizado seja usado para fazer generalizações, base de uma ciência branca que se pretende universal.

A arguição dos antropólogos indígenas, que compartilham um mesmo universo social e simbólico, revelou a diversidade de conhecimentos que varia entre os povos, especialistas e linhagens familiares.

O que não põe em questão a sua validade. Apenas expressa um nível mais sofisticado de fazer ciência.

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Foto: Dassuem Nogueira/especial para o BNC Amazonas