Pesquisa do Inpa aponta compostos da Amazônia contra zika vírus
Nanopartículas biodegradáveis ampliaram a ação antiviral e a resposta imune em células infectadas
Publicado em: 08/06/2026 às 16:39 | Atualizado em: 08/06/2026 às 16:39
Uma nova estratégia contra o Zika foi descrita por pesquisadores do Inpa/MCTI, Ufam, Fiocruz Amazônia e L’ Istituto per i Polimeri, Compositi e Biomateriali (IPCB), da Itália. O estudo mostra que compostos naturais da Amazônia, combinados com nanotecnologia, conseguem inibir a replicação do vírus Zika e modular a resposta imune em células humanas infectadas.
A publicação recebeu o título “PEG-PCL nanoparticles loaded with amazonian compounds inhibit Zika virus replication and modulate host immune responses” e mostra a análise do óleo essencial da espécie Piper alatipetiolatum (Pau de Angola) e o composto Zerumbona, extraído do gengibre-amargo Zingiber zerumbet, combinados a nanopartículas biodegradáveis.
“A ideia central é aproveitar a biodiversidade amazônica e pesquisar o potencial antiviral de bioativos com atividade biológica contra esse tipo de vírus. O objetivo foi entender de que forma esses compostos poderiam ter ação antiviral para que, no futuro, a gente possa avançar para estudos mais complexos”, explica o pesquisador Gemilson Soares Pontes, do Laboratório de Virologia e Imunologia do Inpa.
Pontes destaca que a utilização de nanopartículas biodegradáveis foi o diferencial. Ao nanoencapsular os compostos, os cientistas aumentam a biodisponibilidade e, consequentemente, a ação antiviral.
“Isso é inovador, porque melhora a entrega do bioativo para a célula infectada”, reforça o pesquisador.
O trabalho faz parte do projeto “Nanoarbo – Nanoencapsulamento de compostos bioativos para arboviroses”, iniciado em 2022 e financiado pelo Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da Itália (MAECI) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam).
Sobre o Zika
O Zika é transmitido principalmente pelo Aedes aegypti e deixou o país em alerta após o surto ocorrido em 2015 e 2016, quando o Brasil registrou até 1,3 milhão de casos de associação com microcefalia e síndrome de Guillain-Barré. Até hoje não existe antiviral específico licenciado para Zika, o tratamento é apenas sintomático.
Para os pesquisadores que publicaram o artigo, a estratégia também é relevante diante das mudanças climáticas, que expandem a circulação de arbovírus para outras regiões do Brasil e do mundo.
A pesquisa utilizou uma abordagem multidisciplinar integrada envolvendo químicos, biomédicos, farmacêuticos, biólogos e médicos, que fizeram desde a extração e purificação dos compostos até as análises in silico e a avaliação de suas atividades biológicas.
O artigo completo foi publicado e está disponível na revista Biomedicine & Pharmacotherapy. A próxima etapa é avançar para estudar as atividades antivirais contra outras arboviroses de importância em saúde pública, como Dengue, CHIKV e Mayaro, além de avançar para ensaios pré-clínicos mais robustos e translacionais com os compostos mais promissores.
Foto: Acervo do pesquisador
