Milton Cunha, tradutor da estética dos bois de Parintins, será Cidadão do Amazonas

Proposta da deputada Mayra Dias foi aprovada por unanimidade pelo plenário da ALE-AM.

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas em Parintins

Publicado em: 24/06/2026 às 07:00 | Atualizado em: 24/06/2026 às 10:29

O carnavalesco, pesquisador e comentarista cultural Milton Cunha terá oficialmente reconhecida uma relação construída há mais de três décadas com o Amazonas e, especialmente, com o Festival Folclórico de Parintins. A Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM) aprovou por unanimidade o projeto de lei da deputada estadual Mayra Dias (PSD) que concede ao paraense o título de Cidadão do Amazonas.

A propositura foi apresentada pela parlamentar no dia 6 de maio deste ano e, após tramitar pelas comissões da casa, foi votada em plenário no dia 21 de junho, sendo aprovada por unanimidade pelos deputados estaduais.

Mais do que uma figura popular da televisão brasileira, Milton é um amazônida.

Nascido em Belém e criado na ilha de Marajó, no Pará, ele conhece a festa dos bois-bumbás desde os anos 1990, quando esteve em Parintins acompanhando o mestre do carnaval brasileiro Joãozinho Trinta. Desde então, transformou-se em um dos mais entusiasmados defensores da cultura parintinense na mídia nacional, no mercado publicitário e também no ambiente acadêmico.

Doutor em ciência da literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-doutor em narrativas do carnaval, Milton se tornou uma espécie de intérprete da grandiosidade estética de Garantido e Caprichoso para o restante do país.

Ao longo dos anos, ajudou a explicar ao público brasileiro que o espetáculo do bumbódromo é uma verdadeira ópera popular a céu aberto, comparando a complexidade das alegorias e a riqueza dos 21 itens de julgamento à sofisticação dos desfiles das escolas de samba.

O reconhecimento aprovado pela ALE-AM tem relação direta com essa trajetória. Autora da proposta, Mayra Dias destacou a contribuição de Milton para a valorização e a difusão da cultura amazonense. A própria deputada possui laços profundos com o festival de Parintins.

A relação de Milton com o Amazonas ultrapassa o campo da admiração. Ele já recebeu da Câmara Municipal o título de Cidadão Parintinense e, nos últimos anos, estreitou ainda mais os laços com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), participando do projeto de extensão “Toada do Milton”, iniciativa voltada à preservação da memória e das tradições dos bois azul e vermelho.

Frequentador assíduo dos ensaios e das noites do festival, Milton tornou-se um dos maiores divulgadores da festa para além da Amazônia. Em entrevistas, costuma definir Parintins como “um passo do desvairio, do sonho e da proposta folclórica”, ressaltando a potência artística do espetáculo.

Por isso, a homenagem aprovada pelos deputados estaduais tem um simbolismo que vai além da formalidade.

Ao conceder a cidadania amazonense a Milton Cunha, o Amazonas reconhece como filho um intelectual da cultura popular que, há mais de 30 anos, traduz para o Brasil e para o mundo a beleza, a exuberância e a singularidade dos bois-bumbás de Parintins.

Ao mesmo tempo, trata-se de uma homenagem que sela um retorno às origens.

O menino nascido em Belém, criado entre as águas e os imaginários da Amazônia, conquistou o Rio de Janeiro, tornou-se uma das maiores referências do carnaval brasileiro e voltou à floresta como uma das vozes mais influentes na defesa da arte produzida na ilha de Parintins.

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Foto: Kilmer Lima/Câmara Municipal de Parintins

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