Incra barra crédito de carbono ligado ao banco Master no Amazonas
Incra acionou a polícia federal, ministério da Fazenda e Banco Central para investigar o projeto de crédito de carbono em Apuí
Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 27/01/2026 às 22:10 | Atualizado em: 27/01/2026 às 23:11
O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) decidiu barrar qualquer avanço em um projeto de crédito de carbono no sul do Amazonas, envolvendo o banco Master e a famílias Vorcaro.
E, para isso, acionou uma série de órgãos federais diante de indícios de ilegalidade no projeto a ser desenvolvido em terras públicas no município de Apuí (a 220 quilômetros de Manaus/AM).
A autarquia informou que encaminhou o caso à Polícia Federal, ao Banco Central do Brasil, ao Ministério da Fazenda e ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Isso, após a Procuradoria Federal Especializada devolver o processo e suspender a possibilidade de assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).
Segundo relato feito à imprensa, a Procuradoria apontou uma série de razões jurídicas que inviabilizam qualquer parceria com o grupo Vorcaro/Master, envolvido no projeto.
Pela proposta, pretendia-se atuar com créditos de carbono dentro do Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Aripuanã–Guariba, no município de Apuí (AM). A área é terra pública da União destinada à reforma agrária.
A decisão representa, nas palavras de dirigentes do órgão, um “cartão vermelho” ao empreendimento. O Incra informou ainda que dará ciência formal à sociedade e à imprensa sobre as providências adotadas.
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Denúncia do Valor Econômico
A medida do Incra ocorre no mesmo dia em que o Valor Econômico publicou reportagem, nesta terça-feira (27 de janeiro), informando que a autarquia caminha para vetar definitivamente o projeto de geração de créditos de carbono articulado por representantes ligados à família Vorcaro, associada ao Banco Master.
De acordo com o jornal, o projeto buscava gerar créditos em um assentamento criado em 2005 e ocupado por cerca de 80 famílias. Fontes ouvidas pelo Valor apontam que a iniciativa teria tentado reembalar ativos ambientais de um empreendimento anterior, cancelado após indícios de fraude.
Negociação em terra pública
O caso envolve negociações conduzidas por José Antônio Ramos Bittencourt, que teria adquirido direitos relacionados a um projeto de carbono acreditando tratar-se de uma propriedade privada.
Posteriormente, veio à tona que a área, conhecida como “Fazenda Floresta Amazônica”, era, na verdade, terra pública inserida no PAE Aripuanã–Guariba — revelação feita inicialmente por reportagem da Globo Rural, em dezembro de 2024.
Ainda segundo o Valor, chegaram a ser emitidos tokens de carbono vinculados à área em 2024, que entraram como patrimônio de empresas controladas por fundos privados.
Técnicos do Incra relataram, sob anonimato, que documentos apresentados omitiram contratos e relações empresariais relevantes, o que pesou para a mudança de avaliação interna do órgão.
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O que diz o Incra
Em nota oficial, publicada em 21 de janeiro de 2026, o Incra afirmou que vetou o projeto irregular e negou qualquer apoio institucional à iniciativa. A autarquia esclareceu que análises técnicas e jurídicas confirmaram a ilegalidade da operação, por se tratar de terra pública da União destinada à reforma agrária.
O Incra informou ainda que, após pedido de continuidade do projeto ambiental, realizou visita técnica à área, dialogou com a comunidade e instaurou um grupo de trabalho para avaliar parâmetros mínimos de eventual proposta.
O processo, porém, foi encaminhado à Procuradoria Federal Especializada, que apontou obstáculos jurídicos à assinatura de TAC e solicitou documentos complementares que não foram apresentados integralmente.
Segundo o órgão, a possibilidade de conclusão do TAC já havia sido descartada em novembro de 2025. A autarquia reforçou que não finalizou análise técnica favorável e que não há respaldo para afirmar que dirigentes do Incra tenham validado o projeto.
Por fim, o instituto destacou que qualquer projeto de pagamento por serviços ambientais em áreas do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA) precisa passar pelo crivo do Incra e das comunidades beneficiárias, conforme a legislação vigente.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
