Concorrência reduz preço da mão de obra de artistas parintinenses carnaval
Queda nos cachês e aumento da concorrência tornam menos atrativa a presença de artistas de Parintins no carnaval do Sudeste, apesar da influência decisiva desses profissionais na inovação estética das escolas de samba.
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 28/03/2026 às 14:35 | Atualizado em: 28/03/2026 às 14:35
O mercado de trabalho nas escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo estão pouco atrativo para “artistas de ponta” (gestores artísticos), em razão da queda no valor dos contratos de prestação de serviços.
Eles se tornaram conhecidos e reconhecidos em nível nacional, porque elaboram, produzem e apresentam os espetáculos dos bois-bumbás Garantido e Caprichoso, que acontecem desde 1965, na última semana junho, em Parintins (AM).
A primeira “importação” de artistas parintinenses pelo Sudeste foi realizada pela Beija-Flor de Nilópoles, em 1994, por intermédio do carnavalesco Milton Cunha.
Antes, em 1990, os alegoristas Karu Coriolano e Juarez Lima haviam estagiado na mesma Beija Flor. Karu, por iniciativa própria, e Juarez, em mediação da escola de samba de Manaus Sem Compromisso.
Em São Paulo, o mercado foi aberto pela X-9 Paulistana em 1997, com a contratação de Juarez Lima, por indicação do carnavalesco Augusto Oliveira, com quem havia trabalhado na Beija Flor.
Nos anos de 1990 até por volta de 2005, as escolas de samba do Rio e São Paulo “pagavam alto” aos artistas dos bumbás, porque se tratava de mão de obra escassa. Os valores só reduziram nos anos posteriores.
“Hoje, os contratos têm preços bem menores”, afirma Claudenor Alfaia da Costa, cujo nome artístico é Nonôca. Ele e sua mulher, Clívia Filgueiras Ribeiro, também artista, trabalham no carnaval carioca e paulista há três décadas.
Comparativamente, Nonôca assegura que durante uma temporada de seis meses no carnaval carioca ou paulista sobrava dinheiro para comprar um apartamento ou um terreno em área bem valorizada. “Hoje isso é impossível”, revela o artista.
Os artistas pediram para que os valores dos contratos não fossem publicados por se tratar de sigilo profissional.
Glamour
Nonôca acredita que essa depreciação decorre, principalmente, da saturação da oferta de mão de obra e do deslumbramento que a visibilidade midiática desperta nos novos artistas.
“Acho que eles pensam mais em ‘fazer nome’ que em remuneração. Isso prejudica quem almeja um pagamento mais justo. Antes, a gente se sentia mais valorizado”, opina Nonôca.
Mesmo assim, Nônoca acentua que as escolas de samba do Sudeste ainda pagam ao menos cinco vezes a mais aos artistas gestores e seus terceirizados que os bois-bumbás.
São Paulo, para Karu e Nonôca, é o mercado que, atualmente, mais contrata e paga melhor. Isso porque os artistas parintinenses se espalham por todos os grupos carnavalescos. O objetivo dos dirigentes das agremiações paulistas é inovar os desfiles com as esculturas e alegorias que se movimentam, assim como as das escolas do Rio de Janeiro.
Os dois estimam que os dois estados contratam, juntos, em torno de 1 mil a 1,5 mil artistas originários dos bois-bumbás Garantido e Caprichoso, com distintas habilidades, como as de gestores artísticos, alegoristas, aderecistas, figurinistas, serralheiros, desenhistas, designers, escultores e serralheiros.
Esse número estimado é exponencial em relação aos 200 artistas parintinenses que migravam para o carnaval do sudeste na primeira década de 2000, segundo dados divulgados pela Diocese de Parintins, na época.
Karu também passou pela Viradouro e pela Portela, fez parte da equipe do designer Hans Donner, criador da logomarca da TV Globo, e só parou porque decidiu “ficar mais perto da família”.
Juarez Lima morreu em 2024, aos 58 anos, na Áustria, vítima de Acidente Vascular Cerebral (AVC). Ele estava realizando projetos artísticos havia quatro meses em países da Europa.
Somaram-se aos “migrantes” pioneiros outros artistas de ponta, tais como: Rossy Amoedo, Júnior de Souza (1770-2021), Jairzinho Mendes, João Afonso do Amaral, Herlesson Maia, Marialvo Brandão e Antônio Cansação.
Esses artistas assumiram postos de comando nos bumbás, com destaque para Rossy Amoedo (atual presidente do Caprichoso), Karu Carvalho (ex-vice-presidente do Caprichoso) e Marialvo Brandão (atual vice-presidente do Garantido).
Movimento
Para os artistas parintinenses, as escolas de samba de São Paulo foram mais portas de oportunidades que se abriram motivadas pela concorrência “de melhor espetáculo” com as agremiações carnavalescas do Rio.
Elas também “importaram” artistas dos bois-bumbás para dar movimentos às esculturas e alegorias dos carros alegóricos até então estáticos.
A inovação tornou-se exigência no regulamento do desfile no quesito Alegoria e Adereços, a partir de 2010, no qual são observados a criatividade, funcionalidade e integração com o enredo.
Karu e Nonôca asseguram que, atualmente, ao menos 80% da mão de obra artística do carnaval de São Paulo atua ou se formou nos galpões dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido.
Entre os artistas mais novos, Reyner Pereira e Júlio Poloni conquistaram visibilidade midiática como carnavalesco da Gaviões da Fiel, vice-campeã deste ano.
Outros mercados
Outros mercados carnavalescos para os parintinenses são Santa Catarina, Espírito Santo e Amapá. A “expertise bovina” também é requisitada para outras festas populares dentro e fora do Amazonas.
“Dá pra dizer que hoje temos trabalho dentro e fora do bumbódromo e do sambódromo”, disse Nonôca. Ele e sua mulher, Clícia, estão implantando o turistódromo de Parintins, no entorno da Catedral de Nossa
Senhora do Carmo. O projeto é dela
Karu, por sua vez, afirma que hoje atende, prioritariamente, aos convites para “trabalhar perto de casa” e em temporadas mais curtas que as do carnaval em outros estados. Ele também é especializado em ornamentações de Natal e Ano Novo.
Falta de reconhecimento
Nonôca acusa os gestores públicos amazonenses de não reconhecerem o valor e a importância dos artistas parintinenses na divulgação do estado por meio das escolas de samba do Rio e São Paulo.
“A TV Globo transmite os desfiles carnavalescos do Rio e São Paulo para mais de 100 países. Os artistas de Parintins e, consequentemente, o nome do Amazonas são citados inúmeras vezes durante as transmissões. Quanto custaria isso em termos de publicidade paga?”, questionou o artista.
Apesar de gerarem publicidade espontânea para o estado, Nonôca lamenta que os artistas que levam a cultura amazonense para o mundo sequer são agraciados com uma nota de rodapé. “Isso é muito triste”, lamentou.
Mestres
Jair Mendes, pintor e escultor, e o escultor italiano Irmão Miguel Pascale, vinculado à Diocese de Parintins, são reconhecidos formadores da primeira geração de artistas que mudaram a estética dos bois-bumbás parintinenses.
O primeiro introduziu a alegoria e os movimentos do boi-bumbá Garantido, e o segundo, implantou uma escola de esculturas sacras para crianças pobres. Os “discípulos” dos dois artistas reinventaram a brincadeira do boi-bumbá em Parintins.
Jair Mendes se inspirou nos desfiles das escolas de samba do Rio, no meado da década de 1970, e sua primeira alegoria foi um painel furta-cor com o slogan Garantido, o Boi do Povão. Ele esteve pessoalmente no Rio, onde estava uma das suas irmãs.
Irmão Miguel formou-se em escola de artes de Roma e aprendeu a escultura com os melhores professores e profissionais da sua época.
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Foto: reprodução/YouTube
