Barco de 78 anos citado em obra de Wilson Nogueira navega nas Anavilhanas
O histórico barco Harald volta a navegar e preserva parte da memória da navegação e da história do Amazonas.
Da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 09/07/2026 às 04:51 | Atualizado em: 09/07/2026 às 06:00
O barco Harald, destaque no cenário do romance do Do outro lado do sol: um massacre no rio Andirá (Valer), do escritor Wilson Nogueira, foi recuperado, reformado e navega hoje no arquipélago das Anavilhanas, no rio Negro.
O romance é inspirado no massacre de cinco meninas e da mãe delas, com um bebê no ventre, na boca do rio Andirá, no município de Barreirinha (AM), em 1956.
Todas as vítimas são filhas da senhora Teruyo Hidaka e do senhor Munekazu Kimura, japoneses que emigraram para o Amazonas na década de 1930.
Na narrativa, o barco ganhou o nome de Herald e serviu à família Hidaka/Kimura nas viagens entre a Vila Amazônia e a Comunidade do Paraiso, no Paraná do Ramos; e no rio Andirá.
O Harald foi construído por carpinteiros navais parintinenses, por meio da encomenda de Luiz Lourenço de Souza, inspirado na lancha a vapor Lacy, importada da França, por Ernesto Oradeauer.
Oradeauer era dono de usinas de extração de pau-rosa na região do Andirá e Souza seu capataz, cargo corresponde ao de gerente geral.
A embarcação foi lançada à água em 1948, equipada com uma máquina Kelvin K2, 44 CV comprado diretamente de Glasgow, na Escócia, por intermédio da importadora Souza Arnoud.

Imaginário
Wilson Nogueira explicou que o Harald chamou a atenção de várias gerações nos beiradões do rio Amazonas por ser rápido e silencioso.
“Desde criança ouvi as histórias de invencibilidade do Harald em porfias com outros barcos, igualmente, ligeiros”, afirmou o autor.
Nogueira acentua que a presença do barco no desenrolar do “massacre do rio Andirá” foi confirmada pelo empresário Harald Dinelly, filho de Luiz Lourenço de Souza, durante a pesquisa para a elaboração do romance.
O nome do barco é uma homenagem de Souza ao filho. Harald herdou o barco e o manteve por décadas conservado, inclusive com o mesmo motor escocês.
“O Harald era chamado naquela época de palheta de ouro, devido a velocidade ímpar na região; por causa dele, foram feitos vários barcos para tentar superá-lo, como o Vassourinha/Alfredinho (máquina Cartepillar, 75 CV), do Senhor Didi Vieira [Raimundo Djard Vieira]; e o Andorinha do J. G. Araújo [Joaquim Gonçalves de Araújo], nunca sendo derrotado”, diz o memorial descritivo do barco.
O memorial assinala que, certa vez, foi realizada uma porfia no trajeto Manaus-Vila Amazônia entre o Herald e o Andorinha. Harald fez o percurso, pelo rio Amazonas, em 17horas e 10 minutos, 20 minutos de vantagem sobre o concorrente.
“[…] houve muitas testemunhas do feito e foi um grande festejo na sua chegada […]”, pontua o documento. A buzina do Harald também chamava a atenção, principalmente dos curumins, que eram atraídos para a beira do rio para ver o barco partir ou atracar no cais da cidade.
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Novo dono
Há quatro anos, o barco foi vendido ao político Frank Bi Garcia, então prefeito de Parintins.
Bi Garcia justifica que a compra foi motivada por sua memória afetiva, pois cresceu ouvindo as façanhas do Harald.
“O barco estava alagado no porto da fazenda do Dinelly, no Paraná do Ramos. Fiz a compra para recuperá-lo e preservar uma parte importante da história da navegação nos rios do Baixo Amazonas”, comentou Bi Garcia.
Quando menino, Bi Garcia lembra que vendia doces caseiros na orla da cidade e admirava o barco ancorado no porto. “Brinquei de pular n’água do toldo do Harald”, afirmou.
O político pretendia recuperar, também, a máquina Kelvin K42, mas foi impedido pela raridade das peças de reposição no mercado. Ela ficará exposta como relíquia no Parque de Exposição Luiz Lourenço de Souza, onde se realiza todos os anos a Exposição Agropecuária de Parintins (Expopin).
Turismo
Bi Garcia informou que alugou o barco para o seu irmão, jornalista Francivaldo Garcia, dono de uma empresa de turismo que atua no município amazonense de Novo Airão, na margem direita do rio Negro, porto de Manaus.
Com uma máquina MWM de 193 HPs, o Harald continua rápido como nos velhos tempos.
Trechos de Do outro lado do sol: um massacre no rio Andirá.
“Ainda no meio da manhã, Vibarto e Homero foram surpreendidos por um freguês do comércio da família, de nome Onésimo, a encostar a sua canoa do roçado e transmitir-lhes a ordem do senhor Kimura: deveriam, com os demais peões, suspender a capinação, passar na vizinha usina de pau-rosa Vitória, de propriedade do empresário Luiz Lourenço de Souza, e alugara o barco Herald, para assim retornarem imediatamente para casa […]
[…] A parada no porto da Vila Amazônia foi rápida, tempo suficiente para embarcar o Doutor Toda e para que a notícia da tragédia se espalhasse entre os seus moradores […]
[…] O barco Herald empurrado por um motor escocês Kelvin, munido de 44 cavalos de força, silencioso, sulcava as águas do Paraná do Ramos a toda a força e, assim, levantava na proa um protuberante bigode borbulhoso. Os ribeirinhos se perguntavam sobre os porquês de tanta velocidade; alguns tiveram suas canoas alagadas e suas pontes de tomar banho de cuia e lavar roupas arrancadas pela violência do banzeiro provocado pelo barco […]
[…] Os caixões foram transportados no barco Herald, no qual viajaram, também, os policiais. Havia acompanhantes em canoas rebocadas pela embarcação motorizada; eram todos moradores da boca do rio Andirá e do Paraná do Ramos que chegaram a tempo de participar do cortejo fúnebre […]
Fotos: divulgação
