Ângela Bulbol deixa livro que destaca a travessia como desafio

Trágica e ironicamente, ela morreu vítima de atropelamento ao atravessar a rua de sua casa. Autora entregou, em linguagem poética, memórias e reflexões acerca da arte de viver.

Ângela Bulbol livro travessia

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 28/02/2026 às 18:49 | Atualizado em: 01/03/2026 às 08:01

Autobiografia criativa (Reggo, 2025) chegou às livrarias no começo deste ano, com uma mensagem de amor, superação e esperança:

“Não há nada mais poderoso do que inspirar novas gerações – este livro é uma carta de liberdade para todos que quiserem compreender que sempre há tempo para se transformar”.

Ângela Bulbol

Ângela, mãe, escritora, professora e gestora pública, não resistiu a um atropelamento de carro e seguiu para outro plano. As circunstâncias do acidente são investigadas pela polícia.

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A escrita de Ângela é elegante, profunda na escolha das palavras e emblemático no trato de temas humanamente necessários e sensíveis.

Assim, ao longo do livro, em pausas reflexivas, minam palavras-músicas que expressam bondade, empatia e compaixão perpassando uma vida inteira compartilhada com familiares, com amigos e amigas e, agora, com os leitores.

De mãos dadas, ela caminha nas páginas com Meryl Streep, João Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Frederich Nietzsche, Fernando Mello, Soraia Mariani, Ana Raia, Nelson Motta, David Bowie, Violeta Parra, Clarice Lispector, Maya Angelou, Mário Sérgio Cortella e Contardo Calligaris.

Epígrafe

“A coisa não está nem na partida nem na chegada, está é na travessia”

“A coisa não está nem na partida nem na chegada, está é na travessia” (João Guimarães Rosa), em epígrafe do primeiro capítulo, soa como um ensinamento vivido: a vida, vivida com intensidade, reflete uma trajetória que se estende por vidas que seguem…

Então, na sua caminhada, a escritora apresenta-se no processo de nascimento e reconhecimento da pessoa-mulher, entrelaçada à ancestralidade e ao futuro ancestral.

Essa compreensão da travessia como fator decisivo em uma vida torna as idas e vindas às memórias e às lembranças, um exercício em busca do pertencimento e do tecer a existência de um ser a lugares-pátrias, a uma casa comum.

Vêm daí, os registros afetuosos das paisagens do Líbano, país dos seus avós, da multidiversa São Paulo e da Manaus, contínuo pulsar da família imigrante que cultiva suas tradições de origem.

Pode-se dizer que Ângela passeia pelos caminhos da sua existência com o propósito de compartilhar experiências e sentimentos da condição humana, como os dedicados aos avós, aos pais, aos irmãos, aos filhos, aos netos…

Dedicatórias

A cada um, ela dedica um jeito de perceber e reconhecer suas peculiaridades, para elevar a diversidade humana ao patamar da magnanimidade. Isso sem não reconhecer que uma trajetória também contém entraves, decepções, pequenezas e fracassos, os quais exigem, prontamente, a ativação do espírito da superação.

Impressos por Ângela, esses temas tocam o leitor pela proximidade de experiências de vida. Assim, logo ativados da latência pela força da prosa e da poesia reflexivas – ou criativas, como a autora define uma autobiografia que se espalha para além da narrativa pessoal.

A escritora encerra essa travessia poética, com a consciência tranquila de quem viveu, vive e viverá nos corações e nas mentes dos que a leram e a lerão:

[…]

Hoje sou feita de paz e de propósito.

Não há mais espaço para a pequenez.

Respiro fundo, agradecida.

Grata pela travessia.

Grata pela coragem.

Grata por mim.

Saí inteira.

E o que ficou para trás – já não me alcança.

Fim da travessia.

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