Amazônia agora é o epicentro da fome no Brasil, diz criador do Fome Zero
Declarações de José Graziano, ex-diretor da FAO, ocorreu em Roma, na abertura do Fórum Mundial da Alimentação 2025
Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 13/10/2025 às 18:26 | Atualizado em: 13/10/2025 às 18:34
A Amazônia, uma das regiões mais ricas do mundo em recursos naturais, tornou-se o epicentro da fome do Brasil, deixando o Nordeste, que sempre foi o “vilão” do problema da segurança alimentar no país.
Foi o ex-diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e idealizador do programa Fome Zero, José Graziano da Silva, quem fez essas afirmações. O site UOL publicou a conversa com jornalistas, na Itália, neste domingo (12 de outubro).
Em Roma, onde participa do Fórum Mundial da Alimentação 2025, promovido pela FAO, Graziano disse que, embora o Brasil tenha retomado os avanços no combate à fome, o problema permanece concentrado na Amazônia.
“Quando você tem muita gente com fome, qualquer política macroeconômica que eleva o poder de compra, como o reajuste do mínimo, tem efeito direto. Agora, o desafio é combater a fome localizada, entre indígenas, quilombolas e ribeirinhos”, declarou. José Graziano.
No entanto, ele ressalva que os indicadores vêm melhorando recentemente e que ainda há bolsões críticos da fome fora da região. Ele indica que precisa haver foco reforçado na Amazônia, sem perder de vista periferias urbanas de outras regiões.
Insegurança alimentar
O ex-diretor-geral da FAO lembrou que o núcleo histórico da fome no Brasil, o sertão e a Zona da Mata nordestina, vem apresentando redução contínua de insegurança alimentar, impulsionada por programas como o Bolsa Família. A situação é diferente na Amazônia, onde fatores ambientais agravam o problema.
“O grande foco da fome hoje é a Amazônia. O garimpo e o mercúrio estão destruindo as condições de vida da população. Quando a natureza é devastada, as comunidades que dependem dela para pescar, caçar ou produzir seu alimento perdem a capacidade de se sustentar”, disse.
Na época em que dirigia a FAO, Graziano repetia uma frase que, segundo ele, ainda vale hoje: “Se você quiser salvar vidas, salve o meio ambiente primeiro.” Para o ex-diretor, essa ideia resume o desafio amazônico. “Sem floresta, não há alimento para quem vive dela”, afirmou.
Concertação amazônica
Parece não ser exagero o que José Graziano e parlamentares amazonenses falam.
Um estudo da rede “Uma Concertação pela Amazônia” aponta que cerca de 40% da população da Amazônia Legal vive em insegurança alimentar moderada ou grave.
O dado reforça o alerta de José Graziano, idealizador do Fome Zero, sobre a Amazônia como novo epicentro da fome.
Esse percentual é mais alto que a média nacional e até comparável ou superior ao Nordeste em alguns casos — o que reforça a noção de que a região amazônica concentra desafios severos de fome e insegurança alimentar.

Motivos dos indicadores
O estudo também mostra por que a Amazônia aparece com os piores indicadores piores:
- ▸ Logística e acesso: custo de alimentos básicos maior e volatilidade de abastecimento em municípios remotos (cadeias longas, sazonalidade fluvial, baixa infraestrutura), o que enfraquece segurança alimentar, mesmo com programas de renda.
- ▸ Ruralidade e remoticidade: a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) mostra pior quadro no campo. Na Amazônia, a combinação de dispersão populacional e serviços públicos esparsos amplia a vulnerabilidade.
- ▸ Transição alimentar e pressões ambientais: degradação ambiental e mudanças no uso do solo afetam a pesca, extrativismo e agricultura familiar, reduzindo disponibilidade e diversidade de alimentos locais.
- ▸ Desigualdades étnico-territoriais: povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas enfrentam barreiras adicionais, como acesso a mercados, serviços e conflitos fundiários.
Manejo do pescado
“Quando ele [José Graziano] fala Amazônia, tem que considerar um bioma que se expande por nove países. Em relação ao Amazonas, em si, o nosso homem do interior, principalmente ribeirinho, tem dificuldades, agora, ele não passa fome porque sabe manejar perfeitamente o pescado e com isso ele se alimenta”, diz Serafim Corrêa, da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedcti).
Ele reconhece o que os homens e mulheres do interior têm uma renda muito baixa e que a remuneração vem dos benefícios do INSS (aposentadorias, pensões e BPC), do Bolsa Família e do emprego nas prefeituras locais. E essa inatividade econômica decorreu com o fim do extrativismo no final dos anos de 1960.
No entanto, Serafim Corrêa lembra que os empregos vêm aumentando no Amazonas e isso contribui para a redução dos índices de vulnerabilidade. Em janeiro de 2023, por exemplo, o Estado tinha 494 mil empregos. Agora, em 2025, já são 569 mil vagas ou 75 mil empregos a mais, portanto, um crescimento significativo.
Saídas estruturais
Por outro lado, o estudo da “Concertação” aponta caminhos para debelar a fome na Amazônia: sistemas agroflorestais, agroecologia e integração lavoura-pecuária-floresta como medidas estruturais para reduzir a vulnerabilidade alimentar na Amazônia.
Outra boa notícia vem do Amazonas, que está entre os estados que mais conseguiram retirar famílias da pobreza entre 2022 e 2023, de acordo com o Instituto Jones dos Santos Neves. O recuo foi de 9,3% nos índices do estado.
Programas sociais
De acordo com a Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome, do Governo do Amazonas, programa Prato Cheio teve um papel fundamental na redução da fome de milhares de famílias em situação de vulnerabilidade.
Em 2023, as 44 unidades em funcionamento na capital e no interior do estado serviram, ao todo, 4.501.995 refeições e sopas. O programa está presente em 26 unidades do interior do estado, para onde vem sendo ampliado desde 2021.
Ainda no combate à fome, o Fundo de Promoção Social (FPS) entregou mais de 3,5 toneladas de alimentos para 100 famílias em situação de vulnerabilidade social, por meio do programa “Mesa Brasil”, do Sesc Amazonas.
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Foto: Marcello Casal/Agência Brasil
