Machado e Goffman: a ironia dos mortos e o teatro dos vivos
Ambos, cada um a seu modo, revelam como a vida é feita de representações performáticas, máscaras e disfarces. Leia no artigo semanal do sociólogo Aldenor Ferreira.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 13/09/2025 às 02:07 | Atualizado em: 13/09/2025 às 09:55
O que teria a ver Machado de Assis (1839-1908), o literato brasileiro, e Erving Goffman (1922-1982), sociólogo canadense? À primeira vista, nada. Machado foi o grande nome do realismo na literatura brasileira e deixou marcas profundas em nossa cultura; Goffman, por sua vez, contribuiu para a consolidação do interacionismo simbólico e para o avanço da microssociologia com a obra A Representação do Eu na Vida Cotidiana (1956).
Portanto, não são contemporâneos, tampouco pertencem ao mesmo campo do conhecimento. Ainda assim, ao revisitar Memórias Póstumas de Brás Cubas, encontrei aproximações instigantes: ambos, cada um a seu modo, revelam como a vida é feita de representações performáticas, máscaras e disfarces.
Machado nos presenteou, nesse romance, com um narrador singular: um defunto-autor que escreve suas memórias depois da morte. Essa escolha narrativa desconcerta porque dá ao morto uma liberdade irônica absoluta: ele já não precisa agradar, não precisa sustentar aparência, não precisa salvar reputação. Brás Cubas pode expor cinismos, vaidades e a inutilidade de sua vida sem pedir licença a ninguém. A morte lhe retira a máscara.
Fachada e bastidores
Se Machado fala a partir da morte, Goffman observa a vida como um grande teatro. Para ele, cada pessoa, ao interagir, torna-se ator: ajusta seu papel, controla impressões, maneja gestos e palavras diante de um público que espera coerência. O “eu” não é algo fixo ou interior, mas um conjunto de performances situacionais.
Em A Representação do Eu na Vida Cotidiana (1956), Goffman afirma que vivemos entre a fachada – o front stage –, onde encenamos para o público, e os bastidores – o back stage –, onde relaxamos e deixamos cair parte da máscara, ainda que nunca possamos abandoná-la por completo.
Ninguém está livre desse palco. Mesmo a contestação se faz de modo performático, calculada para não comprometer a cena. A vida é performance, e qualquer deslize pode gerar constrangimento, exclusão ou ridículo. O que chamamos de autenticidade é também representação, e talvez por isso Goffman nos faça desconfiar da própria ideia de “ser verdadeiro”.
A aproximação entre Machado e Goffman, mesmo a partir do contraste, é potente. Brás Cubas, narrando do além, pode zombar da elite carioca, ironizar a política, revelar suas próprias vaidades sem temer retaliação. Já os vivos, presos às convenções do palco social, têm “rabo preso”: precisam medir palavras, calcular riscos, encenar até a contestação. O morto fala sem máscaras; os vivos só falam com máscaras.
O paradoxo é incômodo
Essa leitura ilumina também o nosso presente. Basta olhar para as redes sociais, esse palco infinito em que todos performam versões de si mesmos, administrando cuidadosamente a imagem que projetam. A busca por likes, prestígio e reconhecimento é uma gestão de impressões em escala global.
Na política, a encenação tornou-se ainda mais evidente: líderes que não dominam a performance pública raramente sobrevivem ao escrutínio da opinião. Na universidade e no jornalismo, campos que deveriam cultivar a crítica franca, as convenções institucionais e os interesses de ocasião moldam as formas de expressão. Até a crítica mais dura é atravessada pela performance, calculada segundo o efeito da fala.
O paradoxo é incômodo: será possível realizar uma crítica social realmente livre em vida, ou toda crítica é já uma performance goffmaniana? Talvez resida aí a atualidade da ironia machadiana: só o morto é radicalmente livre, mas nós, os vivos, continuamos condenados ao teatro das convenções, ao palco e às máscaras sociais.
Considerações finais
E se a grande provocação de Machado de Assis for justamente essa? Que nossas máscaras jamais caem em vida, por mais audaciosos que sejamos?
Ao colocar um defunto como narrador, Machado nos obriga a encarar a condição de que somente a morte garante liberdade plena de expressão, permite o abandono da cena performática. Já Goffman nos lembra, ao recorrer à metáfora dramatúrgica, que a vida em sociedade é inseparável das convenções e dos papéis que desempenhamos.
Entre a ironia machadiana e a sociologia goffmaniana, somos conduzidos a uma conclusão desconfortável: viver é, necessariamente, representar. Isso não significa buscar uma autenticidade pura – talvez inexistente –, mas aceitar que toda fala, todo gesto e até mesmo o silêncio são performances.
A verdadeira coragem, então, não estaria em esperar a liberdade dos mortos, mas em assumir, em vida, a contradição de representar sabendo que jamais nos livraremos do palco e das máscaras.
*O autor é sociólogo.
