As louças verdes

Publicado em: 04/01/2012 às 00:00 | Atualizado em: 04/01/2012 às 00:00

Ivânia Vieira*

Estava guardado em um armário velho esperando um momento especial para ser colocado à mesa. Assim tinha sido nos dois últimos Natais. Afinal, esse, sim, era um grande evento e merecia ter à mesa as louças em cor verde-folha. Elas tinham o “poder” de ajudar a temperar o clima de festa e embelezar o espaço onde eram colocadas: uma animação a mais para olhos, corações e estômagos famintos.

Dessa vez, as louças verdes foram descobertas antes das datas especiais e todos os dias serviam de abrigo para algum alimento no café da manhã, no almoço, no jantar e nas merendas. Para os visitantes da casa elas eram apenas louças e deveriam ser usadas conforme a demanda do dia e não em função de um evento. E assim fizeram.

A preocupação, nos primeiros dias, com o fim das louças verdes, agora tão usadas a cada instante pelos adultos e pelas crianças, deu lugar a uma tentativa de proteção para evitar o pior: a destruição em série dos pratos grandes, dos pequenos e das três tigelas (as peças mais requisitados).

Então, nessa espécie de agonia preventiva, o jeito era lavar imediatamente após o uso e colocá-las por trás das outras louças – as do dia a dia – também guardadas no velho armário. Assim, haveria mais dificuldade na retirada delas para uso diário.

Não deu certo. Todos os dias, nos diferentes horários, o vai-e-vem das peças continuava a acontecer de forma natural. Ironicamente, as de uso diário é que ficaram de lado, embora estivessem ali na primeira fila, facéis de serem manuseadas.

Nesses dias, alguns objetos quebraram. E com eles quebraram-se resistências, ideias foram desfeitas e conceitos desmantelados. Os momentos especiais ganharam outra compreensão, sem data e sem horário. Aconteceram, acontecem.

As louças verdes puderam testemunhar vários deles, outros não, porque não tinha louça alguma quando eles ocorreram. Apenas a presença, os gestos, as palavras. A reviravolta na casa mostrou a aventura vivida em torno das coisas que dão vida à vida.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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