“Vem, meu filho, vem!”

Publicado em: 08/01/2011 às 00:00 | Atualizado em: 08/01/2011 às 00:00

 Neuton Corrêa*

Do nada, a mulher apareceu no cruzamento das ruas no mesmo instante em que o semáforo dava passagem para os carros que saíam da Praça da Polícia em direção à rua José Paranaguá, enquanto o sinal se fechava para o ônibus onde eu estava, na Floriano Peixoto, no Centro. Testemunha mais do que ocular da história, calculei o transtorno que me causaria o iminente acidente.

Como não consigo deixar em casa minha profissão de repórter, na hora que vi a cena, tracei o planejamento da cobertura: inicialmente, para dar a notícia em primeira mão, entraria, ao vivo, na rádio; depois, acionaria o portal www.acritica.com; e, por fim, levaria para o jornal as fotos da mulher que queria medir força com os carros.

Antes disso, imaginei que eu iria precisar dar uma carteirada no motorista do 600, implorando-lhe para que abrisse a porta antes de chegar no próximo ponto, no muro da Beneficente Portuguesa, onde é a parada regular da linha naquele trecho.

O acidente estava para acontecer. Em menos de meio segundo, o corpo da mulher estaria ali, espatifado no asfalto. Talvez nem levasse meio segundo. Velocidade e espaço indicavam que, em centésimo de segundo, o carro acertaria o lado direito do corpo da transeunte.

Não estou exagerando, senhores. Aplicando os fundamentos da Física, vocês haverão de concordar com este ser que vos escreve. E, para lhes provar isso, usei o conceito de Movimento Retilíneo Uniforme Variado, o famoso MURV. Com ele, poderia descobrir a velocidade do carro, o espaço entre o veículo em movimento e até a força da batida.

Sei que estão achando que estou viajando demais, porém tornarei a coisa mais simples. Para se encontrar tudo isso do que acabei de falar para vocês, basta aplicar a fórmula “Sa = Sb”, que se converteria em “So + Vo * t”. Ou seja: espaço inicial (So), mais velocidade inicial (Vo), vezes o tempo (t), igual à fração do tempo que estamos discutindo.

Pois bem, quando comprovei pela Física que numa piscadela seria obrigado a alterar meu sábado, senti um frio na espinha, minhas mãos gelaram, enquanto meus olhos observavam, em dilema, o iminente acidente: eles não sabiam se olhavam com o olhar de passageiro ou com o olhar de repórter ou com as duas coisas que sou como personagem desta nossa conversa de todos os sábados: passageiro-repórter.

A tragédia seria enorme. Não havia dúvida. O veículo era grande demais para sua futura vítima. Tratava-se de uma picape contra o corpo esquelético que atravessa a rua apressadamente, rebolando-se.

Eu não era o único a presenciar o episódio. Ao meu lado, o amigo Wellington, o Tolão, também observava aquilo que estava prestes a acontecer. A cena era tão ligeira que só deu tempo dele exclamar: “Putz, essa se lascou”, enquanto um pouco mais à frente outros passageiros antecipavam o final da história:

“Ela vai morrer”!

Mas, amigos do busão, a mulher não morreu. Pelo contrário, ela resolveu encarar o carro. Encarar é a palavra que me vem à cabeça, mas ela não encarou o veículo.

Na verdade, quando o carro acabou de arrastar seus pneus no asfalto em cima dela, a transeunte, deu um pulinho, meteu a mão no meio de suas pernas, abaixo do zíper de sua calça jeans e, com um rebolado sensual, gritou para o motorista: “Vem, meu filho, vem! Vem me matar!”.

*Jornalista, filósofo e escritor.

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