Ministro da Educação

Publicado em: 19/02/2011 às 00:00 | Atualizado em: 19/02/2011 às 00:00

Neuton Corrêa*

Acho que meu parceiro de viagem deve ter tido algum problema na noite passada. Assim que embarcou no 460 e passou pela catraca, ele foi direto para o fundão do ônibus e sentou-se no último assento do cantinho direito do busão. Ao invés dos bregas que costuma ouvir, tocou uma música que fez uns poucos passageiros olharem em sua direção. Ouvindo os primeiros versos da primeira canção que ele tocou (Todo dia quando eu pego a estrada / Quase sempre é madrugada / E o meu amor aumenta mais), lembrei-me de meu amigo Zezito.

Em 1984, quando essa música, Caminhoneiro, foi lançada, Zezito andava para cima e para baixo com o disco do Roberto Carlos. Recordo até hoje daquele LP. Era um disco branco, com a imagem do cantor na capa e na contracapa. O Roberto calçava sapatos brancos, vestia calça jeans e casaco do mesmo tecido com mangas compridas enroladas até o cotovelo e com dois botões desabotoados para deixar aparecer um cordão de ouro. Nesse vinil, Roberto Carlos está de cabelos curtos.

Pois bem, onde parava, Zezito pedia para tocar a primeira faixa do lado B e repetia a canção enquanto estivesse sentado com olhar compenetrado. Por causa disso, amigos do busão, sempre o achei um ser romântico. Mas, senhores, ano passado, conheci algumas presepadas que não conhecida do amigo de adolescência, com quem experimentei as primeiras meiotas e cheiotas.

Para vocês terem uma ideia, Zezito não se chama mais Zezito. Agora, é “Ministro”. “Sim, Ministro! Ministro da Educação”, respondeu-me o Romário, irmão dele, explicando-me: “O bicho era mais grosso que papel de embrulhar prego”. E eu, prontamente, contestei: O Zezito que eu conheci era romântico.

Mas o irmão dele rebateu: “Macho, tu não sabe: eu decorei todas as músicas do Roberto, porque toda vez que ele lançava um disco, o Ministro ligava a vitrola de casa e todo mundo tinha que ouvir quantas vezes ele repetisse o sucesso”. Confesso que tentei defender outra vez meu amigo, mas o Romário, que é bem mais novo do que o Zezito, começou a fazer um relato das histórias que ele já presenciou do irmão:

“Macho, quando o Ministro veio estudar em Manaus, ele morou comigo e com a Cris (irmã). Num dia, ele chegou se sentindo mal e perguntou:

(Ele engrossou a voz e fechou o rosto).

– (Cris) Tina, onde tem uma farmácia aqui por perto?

– Mano, aqui, a gente não precisa ir lá, não. É só ligar que eles atendem!

Macho, o Ministro colocou a mão na cintura e perguntou a dela:

– Quer dizer que aqui eles também aplicam injeção por telefone, é?”

Ri da história, mas ele continuou:

“Rapaz, o Ministro era invocado com o namorado da Cris, porque, toda vez que o Zezito chegava em casa e encontrava o namorado dela bebendo, o dia acabava para ele. Aí, macho, num dia, ele chegou em casa e encontrou o namorado da Cris bebendo. Nesse dia, o Ministro chegou com duas caixas de leite, e o cunhado perguntou:

– Ei, cunhado, vai beber leitinho hoje?

O Ministro respondeu tranquilamente:

– Não, isso aqui é para lavar a calçada. Eu gosto de lavar calçada com leite.

– Cara, meu cunhado saiu para pegar cerveja e, quando voltou, encontrou o Zezito com uma vassoura na mão e esfregando a calçada com o leite”.

Lembrando-me do Zezito, nem percebi o busão chegar ao local onde eu desembarcaria. Apressei-me para descer, mas resolvi desembarcar no outro ponto, porque, do fundo do busão, ouvi outra música do Roberto (Eu cheguei em frente ao portão/ Meu cachorro me sorriu latindo…).

Ah, ia esquecendo, quando o Romário me contou a história do irmão, ele me advertiu: “Macho, o Zezito agora está um amor”.

*Filósofo e escritor.

Tags