O bêbado e a boca-de-lobo

Publicado em: 13/10/2009 às 00:00 | Atualizado em: 13/10/2009 às 00:00

Neuton Correa*

Bêbado todo mundo conhece ou já viu um. Muitos até experimentaram os efeitos etílicos no coro. Outros experimentam sempre. E uns de vez em quando. O problema é a boca-de-lobo. Poucos sabem do que se trata, até porque ela designa muitas coisas. Então, antes de começar a história julgo necessário esclarecer as dúvidas sobre isso.

É importante explicar, porque a idéia que a palavra traz é a da boca de um animal. Assim imaginei quando a ouvi pela primeira vez, ainda garoto, trabalhando com meu pai, que era carpinteiro. Ele pediu que fosse à casa do vizinho emprestar a dita boca-de-lobo. Saí de lá pensando numa cabeça de cachorro. Mas não era isso.

A boca-de-lobo que ele queria era outra coisa. Também não era aquele nó que se dá em punho da rede de dormir para deixá-la mais alta. Muito menos era um bueiro, como diz o Dicionário de Aurélio, que consultei para ver o significado formal da palavra composta por dois substantivos e uma preposição.

Bem, a boca-de-lobo é uma ferramenta, que também chamam de draga. É feita de duas lâminas de ferro em forma de concha. Cada uma delas tem mais ou menos trinta centímetros e se ajustam uma na outra por intermédio de um eixo, que permite o movimento semelhante ao da boca, que abre e fecha.

A outra parte desta ferramenta são os cabos de madeira, que se acoplam às lâminas. São do tamanho do cabo de vassoura, porém mais grossos.

Pois bem, feito esse intróito, vamos à história do bêbado. Ela aconteceu a bordo do 430, há uma semana, na AM-010 (Manaus-Itacoatiara). Era um cidadão que arrastava uma das penas. Entrou pela porta da frente sem pagar passagem. Na chegada, exigiu o assento reservado para deficientes e conseguiu. Afinal, além da perna atrofiada, ele ainda estava às quedas.

Assim que se acomodou, começou a falar só e a importunar quem estava perto dele. Mexia com quem entrava e saía do ônibus. E foi num desses movimentos de embarque e desembarque que subiu uma pessoa segurando a tal boca-de-lobo. A ferramenta estava com as lâminas embrulhadas por um pedaço de pano e os cabos amarrados com cordas de nylon.

O bêbado, com a cabeça balançando e os olhos quase fechados, assim que percebeu o cidadão se equilibrando com as tralhas que levava, saltou de sua cadeira e gritou: “Ei, cara, senta aqui no meu lugar. Esse lugar é para nós. Aqui só senta quem é especial!” Ninguém agüentou, afinal, não é todo dia que se encontra um bêbado educado. Ainda mais cedendo um lugar a outro, numa viagem de sábado à tarde, superlotada e em uma linha que passa uma hora sim e duas, não.

Com a cordialidade do porre, o homem que carregava a boca-de-lobo não perdeu tempo. Pegou a draga, uma saca que levava com algumas mudas de coco e prontamente se sentou no lugar onde estava o alcoólatra. A gentileza dele deixou todo mundo sem entender a razão. Pensei até que fossem velhos amigos, mas não eram.

Só descobri a intenção do gesto do bêbado quando, alguns minutos depois, ele voltou a gritar: “Pode sair daí. Tu não é deficiente coisa nenhuma. Nem isso aqui é uma muleta. É uma boca-de-lobo. Pode me devolver o lugar”.

A confusão e as gargalhadas continuaram até o fim da linha.

*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação, Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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